Eu arregalei os olhos e meu coração pesou. Parecia que um
enorme peso havia sido arremessado sobre meus ombros. Arranquei da toca de Kalion
com um estrondo, e quase arrebentei sua porta de madeira.
Quem chegava era Cicio, meu
especial amigo e confidente. Eu gostava muito dele também. Tratava-se de um
imenso cão troncudo, espadaúdo, musculoso, a pele negra e os pelos curtos e sedosos.
Tinha olhos azuis profundos, não tão glaciais quanto os meus, que eram da cor
do gelo e, na verdade, também era um cão normal, mas vivera com donos humanos.
Fugira, porém nunca conseguira arrancar sua coleira, espinhenta e metálica.
Aquilo aparentava lacerar sua garganta, mas ele aguentava com coragem a dor
lancinante que parecia ser o que sentia sempre que se movia.
-Cicio! - chamei. Ele virou o
rosto arranhado com força. Senti que a garganta devia ter doído mais um pouco.
- Cicio, o que aconteceu?
Ele lambeu os beiços. - Akra, eu
estava buscando a patrulha de caça de Pam, que nunca chegava, e a encontrei
caída no chão. Estava respirando com dificuldade. Eu a trouxe correndo, e, ao
menos, ela quis dar seu último suspiro dentro das fronteiras da Clareira.
Uma lágrima escorreu pelo meu
rosto. - Morreu?
Suspirei e olhei para o chão, mas
nunca desejei tanto poder olhar de novo para cima.
Graças a Deus, Pam não sangrava
tanto quanto eu esperava, mas havia uma luz em seus olhos. Aquilo me
entristecia.
Por quê?
Porque eu a amava.
Eu não sabia por que ela sorria.
Ela abandonara a vida, a coisa que ela mais adorava!
Mesmo assim, cheguei mais perto
dela e apoiei minha cabeça em seu pelo macio, branco sarapintado de negro.
Chorei como um filhote.
-Pam, por quê? Não podia ter
feito isso comigo! - engoli em seco e baixei ainda mais a cabeça, para que
ninguém além de mim mesmo ouvisse o que diria a seguir. - Eu a amo, e nunca
deixarei de lhe amar.
Pam não esboçou reação, mesmo
depois daquilo, e eu notei que ela havia ido embora. Simplesmente me abandonara.
Lágrimas salgadas escorreram-me pela face e chegaram-me na boca. Engoli o sal
azedo, mas não prestei atenção em mais nada além da morte dela.
Engoli mais um pouco em seco.
Corri para longe.
Cicio irrompeu da multidão. -
Akra! Volte! Temos de cuidar do enterro! - uivou, tentando chamar minha
atenção. Eu me sentia como um filhote rebelde, que escapava dos pais a todo
momento.
Mas eu não queria ouvir aos
chamados de ninguém. Fugia, embora soubesse que a fuga nunca iria me livrar da
dor de minha perda.
Cheguei à uma planície e me
sentei sobre uma rocha, suspirando. Tentei pensar em outra coisa que não fosse
Pam. Morta. Nunca mais eu a veria.
Mas, enquanto meus esforços
morriam, vãos, eu ouvi outro uivo. Desta vez, era agudo, fino, irritante.
Apoiei o focinho entre as patas. Iglu, o lobo que mais gostava de me encher,
viera atrás de mim.
Fechei os olhos, tentando fingir
que não o conhecia e que não queria que ninguém me visse. Um súdito prudente,
sem hesitar, iria embora e me deixaria em paz. Mas Iglu não era nem ao menos
prudente, então ele começou a me focinhar.
-O que você quer?! - resmunguei,
sem vontade de atendê-lo.
-Akra, não fique assim por causa
de Pam. Ela... Ela também o amava.
-Você sabe quem era Pam?! -
vociferei, irritado e chorando. Olhei para ele. Comecei a soluçar. - Pam era a
mãe do meu filho, a loba que eu amava e a quem eu queria me declarar
futuramente!!!
Iglu não respondeu. Apenas abriu
a boca, mas eu não sabia se queria falar ou se estava assustado. Porém, graças
a Deus, na hora das discussões é quando nós mais encontramos o que falar para
assustar. - E, se você disser que Pam não era uma loba, eu juro que te desfio
em fatias!!
O lobinho se eriçou. Bom, na
verdade, eu até que gostava de Iglu. Ele era muito bonito. Tinha pelos da cor
da neve, pálidos até as pontas, cada fio, seus olhos eram verdes-água, seus
dentes eram branquinhos e ele tinha a ponta das orelhas escurecida. Daí depois
ele era mais feioso. Lembrava muito uma carcaça branca de tão magricela, seus
olhos saltavam fora das órbitas, sua cauda era fina, porém ainda assim era
bonita e sedosa, e, em sua pata dianteira esquerda, ele tinha amarrado um
cordão azul. Não sabia o porquê desse cordão azul, mas o importante é que ele
tinha um.
Iglu fora considerado um cão de
caça maltratado quando foi encontrado fuçando nas lixeiras. Ele foi capturado
pelos humanos, que o venderam para uma senhora, que amarrou este cordão nele.
E, deste então, ele enlouqueceu e nunca mais parou de falar da vida com os
humanos.
E, deste então, ele me enchia o
saco de uma maneira absurdamente frequente.
-Akra... - ele gaguejou, fungou e
prosseguiu. - Akra, não fique assim. Você, não importa o tempo que demore, vai
superar essa perda. Agora, vamos embora, esse lugar fica perto demais do
território das panteras negras. Vamos embora!!!!!
Continuei deitado, fingindo que
não ouvira. Enquanto lentamente, sofria, com um gemido, me ergui. Pigarreei: -
Você não citou em parte alguma de meu consolo sua vidinha de cão de
estimação.
Iglu sorriu. - Eu respeito a dor
dos outros e a coloco acima de meus gostos, Akra.
Gemi, com dor nas juntas. -
Vamos, então.
Eu mal ouvi a fera atrás de mim.
Um ruído baixo não me fez prestar atenção nele, talvez vindo de meu coração,
que ainda sofria.
E, quando eu vi, uma pantera
saltou em cima de mim.
Era um raio marrom com minúsculas
listras mais escuras. Não era daquela região, o que estava fazendo ali?! Gani,
quando as garras imensas e negras da pantera se cravaram nas minhas costas.
Senti o sangue me escorrer até gotejar nas laterais do corpo, e me
desesperei. Girei como um tornado, sacudindo a pantera em cima de mim, ela
cravando as presas na minha garganta. Senti que ela tentava me matar, mas não
conseguia, porque escorregava das minhas costas e quase caía.
Iglu estava ao meu lado, mas,
quando viu que a pantera estava quase conseguindo me cansar, caiu em cima dela,
arrancando a pele de suas costas e a fazendo guinchar de dor. Ela caiu matando
sobre ele, que conseguiu tirá-la de cima de si e a deu um corretivo, mordendo e
arrancando um pedaço de sua orelha. Tremi e caí no chão. Senti que algo dentro
de mim arrebentava e se partia. Uivei de dor.
A pantera se fora, mas a dor,
não. Permaneci no chão, e, em dois segundos, fechei os olhos e deixei meu corpo
relaxar, repetindo muitas vezes a palavra “Pam”. Depois de alguns minutos, ela
perdeu o sentido para mim, enquanto eu observava o sangue escorrer de mim e de
Iglu.
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