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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Capítulo 3: Domínios dos lobos

Abri os olhos e gani, dolorido. Não me encontrava mais naquela colina, aonde fora atacado por uma pantera. Estava em Junk, na grama à frente da toca de Kalion. Tossi, e vi um par de olhos verdes-água me observarem. Bufei. Iglu!
-Iglu - chamei, com voz fraca. Ele sorriu, exibindo suas presas, e eu, fracamente, com minha vista embaçada, vi gotas de sangue manchando seus dentes. Ele me carregara até Junk?
-Akra - ele lambeu minhas bochechas. - Akra, não se mova. Você foi atacado por uma pantera...
-Eu sei que eu fui atacado por uma pantera - resmunguei. - Eu bem que me lembro dos dentes da bendita coisa fincados na minha garganta. Por Deus, Iglu, você me carregou até aqui?!
Iglu assentiu com a cabeça. - Kalion quer saber se você quebrou alguma costela. Eu acho que sim. Você cuspia sangue, Akra, não parava de vomitar sangue, dos puros. Eu ouvi o seu grito de dor quando a costela se quebrou e vi quando escorreram lágrimas de seus olhos.
Eu gani, ao sentir uma pata experienciada tocar as laterais de meu corpo. Tossi, e comentei, compadecendo-me do meu companheiro de Clareira. - Pobre criança. Não deveria ter visto tanta crueldade.
Iglu, involuntariamente, rosnou, irritado. - Eu não sou criança. Eu já sei as desavenças entre panteras e lobos. Mas... Eu não sabia que as panteras podiam ser tão cruéis com os lobos.
Eu sorri, alegre. De repente, a dor sumiu de meu corpo. - Iglu, você nasceu nessa Clareira. Mesmo que já tenha ido morar com os humanos, você ainda é um Lobo de Junk. Eu o considero como um de meus filhos. 
Iglu lambeu meu focinho e deu licença a Pas. - Pai! Pai! Você está bem?
O lobo branco magricela olhou para mim. Ele queria que eu fosse atendido logo. Iglu era uma das mais brilhantes e puras luzes da Clareira da Luz.
Kalion olhou para mim, enquanto eu revirava mais uma vez os olhos e desmaiava.
Acordei dentro da toca escura do doutor da Clareira. Ele estava em cima de mim, e com as patas cobertas de sangue, que pingava no meu rosto. Cuspi, irritado, uma gota que caiu na minha boca. O velho lobo limpou a garganta e falou, numa voz vagarosa e enferrujada pela idade.
-Akra, você foi muito ferido. Eu sequei seus ferimentos com musgo, estanquei o sangramento, mas você partiu algumas costelas. Creio que terá de ficar aqui por algumas semanas, descansando. Escute, líder, você deve escolher um de seus guerreiros para manter a liderança por você por algum tempo. Tem algumas horas para pensar.
Mas eu demorei apenas alguns minutos. Mandei Kalion para dizer à todos da Clareira quem seria meu escolhido. Só pude ouvir quando o médico falou...
- E o escolhido para poder manter a liderança de Akra enquanto ele se recupera é....Iglu!!!!!!
... Pois, após seu discurso, não conseguia mais nem ouvir meus próprios pensamentos.
Toda a Clareira ergueu vozes de protesto. Reclamavam, dizendo que Iglu não era o suficiente para comandá-la. Queriam, ainda, bater nas portas da casa de Kalion para discutir comigo. Estremeci. Eles deviam querer me desfiar, ou, talvez, me dar de comida aos ratos e abutres. Seria uma desonra. Mas, engolindo em seco, tomei coragem e me vi mais uma vez como o líder forte e comandante que eu costumava ser. Um puro macho de batalha.
Sendo assim, me ergui do chão coberto de musgo, gemendo e dolorido. Embora Kalion houvesse me proibido de caminhar, eu fui até a porta. Todos abaixaram a cabeça ao me verem, Iglu soltou um guincho alto e Kalion tentou me empurrar para dentro da toca. Percebi que, ao menos, eles não iriam querer me dar aos ratos e abutres.
-Não escolham por mim! - rosnei, abusando de meu poder, satisfeito, e, para minha alegria, todos estremeceram. - Se Iglu é meu escolhido, que assim seja! Não cabe a vocês escolher quem tomará conta um do outro. Este é meu papel. Se sou desnecessário, vou embora!
Baixei a cabeça, enquanto Kalion me segurava. Inspirei por um momento e ergui a cabeça novamente.
-Quando eu fui atacado pela imensa pantera, Iglu ficou parado, morto de medo. Todos aqui sabem que ele ainda não completou o treinamento de guerreiro. Mesmo assim, tentou tirar a pantera de cima de mim, por mais que não soubesse como. Sei que vocês fariam o mesmo, mas vocês sabem muito bem como se defender. Então, será Iglu o escolhido, sem nem mais um pio quanto a isso! Estamos entendidos?!
-Sim, Akra! - eles baixaram a cabeça novamente e se foram, cada qual para os seus trabalhos. Apenas duas lobas ficaram na frente da toca de Kalion. Lara e sua irmã, Wak. 
Me voltei para elas e tossi ruidosamente. - O que há? Existe algo que queiram me contar? - vendo que estava quase rosnando, baixei o tom de voz e pigarreei. - Algum problema?
As duas chegaram mais perto de mim, mas apenas Wak prosseguiu até quase colar seu focinho com o meu. - Akra, você se lembra de quando nós.... Éramos parceiros?
-Claro - grunhi. - Como não me lembraria?
-Bem... Você sabe que eu sou tia de Iglu.
-Sim,a mãe dele é Lara.
 Ela estremeceu. Olhei fundo nos olhos dela. - Não é mesmo?

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