-Bom dia, Akra - ela me saudou, nervosa.
-Bom dia, Wak. Como vai?
-Bem.
-Então, me diga o que tem a me dizer, estou esperando há dias para que você me conte.
Wak se remexeu, ainda mais nervosa. Ela lembrava um gato com coceira. - Mas é que...
- O que é que há, Wak?! - lati. Kalion, que tentava me arrastar para dentro de sua toca escura, levou um susto enorme e quase caiu. - Qual é o problema?! Você está tremendo feito louca! - pigarreei. - Há algo de errado com Iglu?
Ela tremeu até estacar. Ergueu os olhos para o céu, como se pedisse ajuda a Deus, e uivou para mim: - Eu não aguento mais essa mentira, Akra! Eu sou a mãe de Iglu!
Tossi, quase que meu coração para. - Mas... E Lara? Ela é sua irmã! Está ali na frente!
-Ela sabe. Eu dei Iglu a ela quando ele nasceu. Era o momento no qual você foi escolhido como líder da Clareira da Luz.
-Mas o que é que eu... Tenho a ver com isso? - minha cabeça girava, mas eu já sabia a resposta.
Enquanto Wak falava minha culpa na história, eu imaginava; A hipótese bateu com o desespero e também com a resposta correta.
-Você é o pai de Iglu, Akra.
Comecei a sentir minhas pernas bambearem. Senti minha mente girar, sacudir e dançar no meu crânio. Kalion se ergueu e começou a me empurrar.
Não conseguia mais aguentar. Eu tinha muitas responsabilidades, não aguentava mais tanto stress, tanta preocupação... E ainda um filho para cuidar.
Eu não queria mais conversar palavra com minha antiga
parceira. Dei alguns passos para trás, tentando fugir da confusão que me
assolava a mente, para em seguida tentar fugir desta; Me voltei para o lado da
fora de Junk e, nem olhando para trás, disparei para longe.
Já era tarde da noite quando parei de correr e procurei me
acalmar. A tensão que fazia meus músculos arderem era mais forte do que meus
pensamentos preocupados. Ganindo, olhei em volta, para observar o local no qual
eu me encontrava.
A terra na qual eu vivo é linda, cintilante e maravilhosa.
Tem terra fértil para as plantações e vegetações que alimentam as presas dos
lobos, fazendo com que o mundo seja rico em comida, e com que nunca haja fome e
escassez de alimentos em nenhuma clareira. Se uma sequer de todas elas disser
que seus lobos precisam comer, está mentindo.
No entanto, ultimamente, temos muita escassez de alimentos.
O povo e os guerreiros estão se tornando cada dia mais fracos. Alguma coisa,
algo que estranhamente me encucava, estava matando os animais e deixando as
populações destes desfalcadas. Alguma coisa tinha muita fome e matava todos os
veados, cervos e lebres da região. Os únicos que nunca tinham sido mortos eram
os ratos, que nós tínhamos de caçar, ou iríamos morrer.
Temos, na verdade, nove lindas clareiras ao redor de um
imenso círculo marcado com uma vala que, após uma correnteza cair sobre ela, se
enche de água e depois segue seu curso, nunca deixando a vala se desfazer. São
elas:
·
Clareira de Junk – Luz
·
Clareira de Goz – Fogo
·
Clareira de Kiha – Água
·
Clareira de Carh – Alegria
·
Clareira de Blheg – Lucidez
·
Clareira de Gono – Poeira
·
Clareira de Zonno – Mistério
·
Clareira de Zalhi – Satisfação
·
Clareira Obscura – da Morte, Frieza, Tristeza e
Tudo o que contraria as outras melhores clareiras
Havia apenas um local ao qual nunca íamos: à Clareira
Obscura. Lá viviam os piores lobos, filhos de hienas com o líder das piores
alcatéias. Seres desprezíveis, que matavam e destroçavam por prazer os corpos
de jovens lobos que surgiam por lá. Por serem tão horrendos, viviam no alto de
uma colina negra como a Morte, que nos pega por trás, e nunca desciam. Ali
podiam comer todos os cervos que quisessem, mas que não viessem nos matar. Eles
eram ossudos e estranhos, feios e dentuços, que, por serem por isso desprezados
pelos outros lobos, faziam tudo isso de ruim – o que apenas piorava sua
reputação de desprezível.
Apesar de tudo, não há nada melhor do que observar meu mundo
para relaxar. Eu sempre fazia isso.
Naquela noite, o céu estava estrelado, e a lua, cheia e
brilhante, prateada, me convidava a relaxar. Apesar de tudo, eu estava
entristecido pela mentira que me fora guardada por tanto tempo, e não
encontrava um meio de dar vazão a ela sem incomodar ninguém.
Me lembrei de uma vez na qual meu avô me contara, em
segredo, que o lobo que está triste deve deixar fluir sua tristeza de maneira
saudável e uivar para a lua cheia. Ele me disse que a luz prateada da lua brilhava em nosso cérebro e nos deixava mais lúcidos. Me contou também que dava para ir até Blheg, a Clareira da Luz, mas eu não tinha ideia de onde ir, quanto mais para onde estava indo. Sentindo minhas esperanças e meu vigor baixarem rápido demais, ergui a cabeça aos céus e soltei um imenso uivo, longo, que arrancou-me as mágoas do coração.
Deitei-me por terra, sentindo um calafrio por todo o meu corpo, e comecei a soluçar, magoado. Tudo fora escondido tanto tempo de mim! Eu não aguentava mais. De vez em quando a gente cansa e fica cada vez mais exausto. Parece que ninguém quer colaborar.
Ouvi bufos ao meu lado. Parecia ser algum dos Buscadores de desaparecidos de Junk.
-Quem é? - indaguei, fingindo estar dormindo.
Uma risadinha marota fez minha mente saltar de alegria. - Meu filho, qual é o problema? Parece até que nunca viu seu velhinho aqui, tão perto de você...
Era uma voz enferrujada, alegre, de bem com a vida. Lembrava um senhor de idade, muito cansado. Meus olhos cintilaram, e eu voltei minha cabeça para o ser.
Meu finado avô se encontrava à minha frente. Possuía um resplandecente pelo dourado, como sempre, e aquela linda franja rala sobre os olhos. Ele me olhou com aquele olhar úmido, lacrimoso e castanho, e deu mais algumas risadinhas.
-Meu filho, recebi teu chamado lá em cima e desci para ver o que te oprime. Conta para teu avô, meu filhote, senta-te no meu colo.
Me sentei, soluçando, sobre o colo de meu avô. Rindo, ele fez uma observação muito inteligente:
Deitei-me por terra, sentindo um calafrio por todo o meu corpo, e comecei a soluçar, magoado. Tudo fora escondido tanto tempo de mim! Eu não aguentava mais. De vez em quando a gente cansa e fica cada vez mais exausto. Parece que ninguém quer colaborar.
Ouvi bufos ao meu lado. Parecia ser algum dos Buscadores de desaparecidos de Junk.
-Quem é? - indaguei, fingindo estar dormindo.
Uma risadinha marota fez minha mente saltar de alegria. - Meu filho, qual é o problema? Parece até que nunca viu seu velhinho aqui, tão perto de você...
Era uma voz enferrujada, alegre, de bem com a vida. Lembrava um senhor de idade, muito cansado. Meus olhos cintilaram, e eu voltei minha cabeça para o ser.
Meu finado avô se encontrava à minha frente. Possuía um resplandecente pelo dourado, como sempre, e aquela linda franja rala sobre os olhos. Ele me olhou com aquele olhar úmido, lacrimoso e castanho, e deu mais algumas risadinhas.
-Meu filho, recebi teu chamado lá em cima e desci para ver o que te oprime. Conta para teu avô, meu filhote, senta-te no meu colo.
Me sentei, soluçando, sobre o colo de meu avô. Rindo, ele fez uma observação muito inteligente:
-Podes ser o mais feroz e o mais corajoso de todos os lobos
nesta vida, meu filho, mas não crescestes tanto assim a ponto de não teres
medo, não é mesmo?
Fiz que sim com a cabeça. – Ah, vô, eu sou pai de uma
criança agora...
-Como assim?
-Wak, minha antiga parceira, veio me contar que Iglu –
aquele que eu odiava, porque achava muito esquisito - é meu filho, e dela também.
Meu vô sorriu, satisfeito. - Meu filho, você deve se preparar. Algo muito pior irá acontecer agora.
Ainda sorrindo, meu avô começou a desaparecer de repente, feito fumaça. Logo, restava apenas seu sorriso, largo e satisfeito.
-Vô, não se vá, eu preciso de você... - mas ele sumiu, dando-me uma lambida na cabeça.
E, logo atrás dele, estava um dos buscadores de Junk, Kim. Tratavam-se de lobos que buscavam os perdidos da Clareira, sem descanso até encontrarem-nos. Eram lobos com muita fibra, para correr tanto.
-Akra - ele disse, desesperado. - Akra, graças a Deus que eu encontrei você. - engoliu em seco, apavorado. - Pas está na Clareira Obscura!