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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Capítulo 8: Domínios dos Lobos

Acordei de novo, com um estrondo surdo que me fez saltar e arrepiar meus pelos cinzentos. Grunhi, vendo apenas a escuridão à minha volta e tentando me lembrar de onde eu me encontrava.
Logo, no entanto, me lembrei; estava preso na Clareira Obscura, junto de meu filho biológico, Iglu, meu outro filho, adotivo, Pas, Soet, uma lobinha da idade do segundo filho, de pelos cinzentos e grandes olhos verdes, e Atala, uma cachorra que estava com graves problemas respiratórios e que deveria estar presa naquele lugar horrível há muito, mas muito tempo mesmo.
O estrondo surdo que eu ouvira fora produzido por uma criatura do lado de fora, que batia violentamente contra as grades. Queria nos provocar Abri melhor os olhos, e vi que era um lobo adulto, de pernas longas e finas e pelos e olhos negros como tudo naquele local. Decidi acordar os outros, correndo feito um louco, e contar-lhes o que estava acontecendo. Precisávamos agir agora, ou o disfarce de animais raivosos não conseguiria ser concluído. 
Lati bem alto, e todos me ouviram e acordaram, alarmados. Pas observou que estava concluindo meu disfarce, e decidiu "berrar" por ajuda. - Ei, amigo! - chamou, correndo de mim. Atala começou a salivar o suficiente para que eu próprio a confundisse com uma cadela raivosa. Contraímos os músculos da face. Iglu andava de maneira rígida, mancando, e salivava e latia. Todos nós estávamos atuando muito bem. - Socorro! Não reconhece dois lobos da Clareira Obscura?
-Vocês são daqui?! - alarmado, o animal chamou Pas e Soet, que estavam correndo em círculos de mim e de Iglu, dando passagem para que fossem pelas grades. Atala, babando muito, tentou morder a pata do lobo, que afastou os pequeninos com cuidado. - Venham, temos que enxotar esses lobos! Estão com raiva! Vão avisar a Yalan, não vão? - ele disse, concluindo sem saber uma boa parte do plano. 


Passamos a manhã inteira aguardando e tentando destruir a prisão. Salivamos tanto que nossa boca chegou a arder. Mas, quando Yalan finalmente apareceu na nossa frente e tentou nos examinar, os músculos pararam de doer, continuamos a salivar e eu até tentei - e quase consegui - abocanhar uma das patas do líder de pelagem negra e focinho ferido.
-Por Deus! - ele se voltou para Soet e Pas, alarmado. - Mas como vocês descobriram essa raiva?
-Acabamos entrando aí dentro para provocá-los - Yalan balançou a cabeça em aprovação - e aí eles acordaram. Tentaram nos matar!
-Isso é muito interessante, pequenos. E se enviássemos esses lobos raivosos ainda vivos, para que infestem as outras Clareiras? - sorrindo, ele aguardou alguns segundos, enquanto meu filho e sua amiga balançavam a cabeça, concordando com a ideia. Ainda bem que Pas raciocinava rápido.
-Poderíamos observar enquanto alguma das panteras enxota os prisioneiros? - disse Soet, doce, porém de rapidíssimo raciocínio.
-Mas é claro, devo tudo a vocês, meus pequeninos! Vocês salvaram a Clareira Obscura. - em seguida, ele soltou um uivo tão alto que quase estourou nossos tímpanos. Eu me assustei, e, para disfarçar, enfiei meu focinho na grade, tentando morder Yalan (Na verdade, eu bem que queria morder Yalan por ter me ameaçado, me chamado de estúpido, dito que provavelmente teria matado meu filho e me atirado numa cela).
Em seguida, vinha Golem, a imensa pantera amarronzada e musculosa trotando na neve. Aparentemente, o ambiente do felino não era ali: na verdade, panteras marrons como Golem eram raras próximas do Círculo das Clareiras. Ela deveria ter sido obrigada a viver naquele local por conta de alguma destruição na sua região natal, ou por causa da caça de panteras que normalmente havia próximo de suas cavernas. Naquele momento, eu senti pena de Golem. Ele estava tiritando de frio, mas desafiava os limites de sua saúde caminhando, submisso, até Yalan. Eu continuava tentando morder o lobo negro, e Atala veio me puxar para mais uma perseguição divertida.
Na verdade, aquela imitação de animais raivosos era, de fato, uma coisa engraçada e prazerosa; eu perseguia Atala, ela me perseguia, Iglu também corria conosco, e gastávamos nossa energia nisso. Eu já podia sentir o vento zunir em minhas orelhas com aquelas brincadeiras.
-Golem, leve esses lobos raivosos para o pé do Monte Negro. - quando a criatura sorriu de maneira assassina, o lobo negro sacudiu a cabeça. - Não, Golem. Eu quero que eles cheguem vivos, e que você os abandone à própria sorte, sem encostar uma garra neles.
Yalan chegou mais perto das grades, e deixou que Golem arrancasse uma delas com as garras. Todos nós saímos em disparada, e eu corri atrás do líder da Clareira Obscura para tentar arrancar um chumaço de pelos de sua enorme cauda. Infelizmente, não o alcancei, e desisti. Ele berrava por socorro, e depois queria chamar a mim e a Iglu de maricas?!
Golem nos empurrou com a cabeça. Eu controlei Atala e Iglu, para que eles não tentassem morder a pantera marrom. 
Descemos com cuidado o Monte Negro, e Golem tomou o máximo de cuidado para que não nos feríssemos com nada. Rochas, cascalho e tudo o mais, ele empurrava para o lado, na intenção de evitar que nos machucássemos. Uma hora ou outra, eu via Soet e Pas, seguindo-nos ao longe. Não queriam que, quando chegássemos ao pé da montanha, fossem despachados para a Clareira Obscura de novo.
Latindo, eu vi que Atala começou a se cansar. Ela ofegava, tossia, mas não parava de salivar e tentar se desvencilhar, grunhindo e latindo, de Golem. A pantera quase não sabia o que fazer com a cadela desordeira. Mas ela me olhava com seus olhos espertos, da cor do caramelo, e eu sabia que ela sobreviveria o suficiente para escapar daquele inferno. 


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Capítulo 7: Domínio dos Lobos

Fomos atirados com força dentro da caverna, que era coberta de grades enferrujadas, e nos perdemos naquela escuridão doentia. Meus olhos simplesmente não conseguiam se adaptar àquele local triste, e eu girava em círculos num turbilhão de emoções. Primeiro, sentia ódio de Yalan, o líder da Clareira Obscura, o lobo negro e atarracado que nos tratara mal e como intrusos. Segundo, sentia medo, porque sabia que ia morrer naquele lugar horrível. Terceiro, sentia-me culpado, pois meu filho adotivo provavelmente morrera e meu filho verdadeiro estava prestes a morrer por minha causa.
-Quem está aí? - indagou uma voz fina, doce e aveludada, porém fraca e desnutrida.
-Eu pergunto a mesma coisa! - disse outra voz, mais amarga e infeliz, porém mais forte do que a primeira.
Uma terceira voz apenas gemeu, resfolegando, com falta de energia e de oxigênio.
-Somos Akra e Iglu - eu disse. Depois de um momento, reconheci a segunda voz: - Pas? É você, filho?!
Depois que meus olhos se acostumaram à falta de luz do local, eu vi meu filho agachado, perto de uma loba pequena, de sua idade, de pelagem cinzenta e grandes e doces olhos verdes como esmeraldas. Ao lado deles, um corpo maior, de pelagem rala e fina e olhos semicerrados. Ofegava e gemia ainda mais alto do que antes, como se quisesse dialogar conosco.
-Pai! - meu filho adotivo choramingou, rastejando até mim. Estava dez quilos mais magro, com as costelas aparentes e os olhos lacrimejantes. - Você... Veio me tirar daqui?
-Claro que vim - aninhei o filhote junto ao meu peito. - Eu não poderia abandoná-lo neste covil de monstros, não é mesmo?
-Obrigado - ele disse, mais aliviado. - Mas não podemos abandonar esses dois aqui, pai. Temos de levá-los para longe daqui, ou serão todos mortos pelos lobos da Clareira Obscura. - caminhando até a lobinha cinzenta, ele disse com a voz rouca: - Esta aqui é Soet, e esta aqui - ele me guiou até o corpo resfolegante, e fez cara de pena. - É Atala.
Eu vi, com desgosto, a coleira de espinhos, feita de couro verde claro, ferindo a garganta da pobre loba. Ou melhor... Cachorra. Eu sabia que, com aquela coleira, não poderia ser um lobo. E principalmente com aquele nome, que nada significava.
-Ela está morrendo, Pas. Não conseguirá fazer o caminho de volta. Vamos deixá-la aqui.
Pas ficou horrorizado. Senti que havia dito algo idiota na frente de meu filho e me calei. Não consegui mais abrir minha boca.
-Arranque esta maldita coleira e ela conseguirá falar alguma coisa, quem sabe até possa se recuperar em pouco tempo - resmungou Soet, atrevida, se aproximando de mim e da pobre criatura quase morta.
Fiz uma bendita força que não sei de onde tirei, mas consegui estourar o fecho sem matar a cadela de pelagem curta. Resfolegando ainda mais, ela recebeu o oxigênio de maneira grata, e abriu a boca para poder aspirar ainda mais.
Passamos mais de uma hora ao redor de Atala. Eu sabia que ela não conseguiria falar nada. Ela me olhava de modo doce, e sorria. Depois de todo este tempo, observei que estava anoitecendo e ofeguei para os outros, que aguardavam de olhos cerrados: - Se ela não falar agora, vamos acabar gastando o dia.
-Eu consigo falar - disse Atala, com voz rouca, ainda sorrindo. Seu sorriso me fez estremecer. - Obrigada por.... Por me curar - ela gemeu alto, e eu quase corri para ajudá-la. Iglu, entretanto, foi mais rápido.
-O que houve, Atala? - indagou ele, de forma doce.
-Dói - ela disse, fechando os olhos. - Dói nas minhas coxas. Enfim, posso me levantar agora. - ela caminhou, mancando, até uma das grades, e encostou sua cabeça num dos buracos dali.
Eu também trotei até ela, e me deitei ao seu lado. Todos os outros foram dormir no mesmo instante, e eu resmunguei por conta da provocação. - Me desculpe por ter sido grosso agora há pouco, Atala.
-Sem problemas.... Qual o seu nome?
-Meu nome é Akra, sou líder da Clareira de Lucem. 
-Oh, um líder! - ela disse, alegre. Em seguida, teve um acesso de tosse, inspirou profundamente e disse. - Infelizmente, eu sofro de asma... Não consigo ficar muito tempo conversando.... - mais um acesso de tosse violento, que me obrigou,a unir meu corpo ao dela, na intenção de aquecê-la e fazer com que ficasse melhor. 
-Venha, você tem que dormir, Atala. Amanhã encontraremos uma maneira de fugir.
Ela me olhava de maneira triste e desesperada. - Não conseguiremos.
-Por que não?
-Estou aqui há alguns meses... E não consegui fugir.... - mais tosse. Exasperada, ela começou a tentar respirar, sem êxito, até conseguir inalar o oxigênio tão precioso para ela. Deitei, ao seu lado, na rocha negra, e baixei a cabeça com cuidado. Ela ficou olhando para mim por alguns instantes, sorrindo como sempre fazia, até cerrar seus grandes olhos cor de caramelo e dormir profundamente.

Acordei com um ronco absurdamente rouco. Olhei para meu lado. Atala havia rolado em outra direção, e resfolegava baixinho. Mas não roncava. Examinei de cabo a rabo o local aonde estávamos, mas não encontrei o perturbador de meu sono. Erguendo-me, dolorido, caminhei até Pas, que estava embolado ao redor das próprias patas e não fazia som algum. Soet, estirada na pedra escura, os pelos cinzentos banhados pela luz da lua, também não emitia som. O único que restava era o que estava, de fato, roncando muito alto. "Iglu", pensei, sem ficar surpreso.
Fui até Atala de novo, e me deitei ao seu lado. Ela inspirou com dificuldade, mas tornou a se acalmar. Fechei os olhos, mas, graças ao meu filho, não consegui pegar no sono novamente. 
Descobri, então, que estava morrendo de medo. Meu coração se consumia loucamente e eu simplesmente pensava que jamais sairíamos daquele lugar. "Tenho de encontrar uma saída antes que eles acordem, pode ser que não voltemos a dormir neste mundo amanhã", pensei desesperado.
Então me ergui, e comecei a apertar os olhos para vasculhar um lugar para sair dali. Sabia que nenhum de nós conseguiria sair pela grade. Caminhei por horas ao lado de cada uma das paredes da caverna diminuta, e não encontrei um buraco sequer. Então olhei para Pas e Soet, um ao lado do outro, dormindo sem fazer barulho. Observei o tamanho de ambos os animaizinhos e sorri. Maquinei a ideia brilhante em minha cabeça. E me surgiu uma luz; vejam só!
Disparei até o corpo de Atala e cutuquei-a com meu focinho negro, fazendo com que acordasse e olhasse para mim. Até que seus olhos se ajustassem novamente à escuridão, ela perguntou quem estava ali. Permaneci calado, até que ela finalmente me viu à sua frente.
-Akra? – ela indagou, confusa e sonolenta. – O que houve? Por que está me acordando? Já é de manhã? Eu dormi demais? –ela olhou para fora e suspirou, ao observar que ainda era de noite e a lua cintilava no céu. – O que foi, Akra...?
-Eu descobri! – sussurrei, querendo gritar. Uivar para a lua que eu havia descoberto uma maneira de sair dali não era uma má ideia. Mas eu sabia que podia acordar os guardas ou até mesmo Golem, a pantera-guarda.
-Como assim? O que você descobriu? – ela tossiu.
-Como sair daqui! Eu achei uma saída!
-Isso é impossível, Akra, você deve estar sonhando ainda. – ela se virou para o outro lado, mas eu a cutuquei ainda mais e ela voltou a olhar para mim, incrédula. – Você não pode ter achado nada.
-Eu não achei; eu planejei!
-Não acho que seja uma boa ideia, Akra...
-Confie em mim! – eu disse. E, de fato, eu estava desesperado para que aprendesse a confiar em mim.
-Está bem, Akra. O que é?
-Podemos soltar Pas e Soet na Clareira Obscura. Pas é um lobo preto como todos esses outros, e Soet é cinzenta, cor que também será aceita. Eles podem se desfarçar de animais locais, e dizer a Yalan que estamos contaminados com alguma doença muito séria... Raiva, por exemplo. E, então, seremos lançados até o pé do Monte das Sombras, e escaparemos!
-E se eles preferirem nos matar?!
-Não vão - eu disse. - Uma doença, conforme as leis da saúde que até esses monstros seguem, deve ser tratada com o exílio dos doentes.
-Mas e os sintomas?
-Basta fingir ter dor, ameaçar abocanhar Yalan, latir agudo, feito um desmiolado, ficar nervoso, arisco, e contrair os músculos das pernas e do rosto, e espumar pela boca. É fácil. 
-Pode funcionar....
-Vamos combinar com os outros.
E, assim, nos unimos para escapar daquele inferno de grades e monstros negros.

Capítulo 6: Domínios dos Lobos

Por alguns instantes, eu fiquei paralisado, sem saber o que fazer para salvar meu próprio filhote. Observei enquanto a pantera se engalfinhava com ele, mordendo sua cauda e tentando arrancar um pedaço de sua orelha ou de seu focinho. Eu observei a cauda amarronzada - de novo, uma cauda marrom?! - da fera sacudir-se de contentamento, chegando perto de mim, enquanto Iglu procurava sair de perto do animal. Meu cérebro funcionou velozmente, e eu me lancei sobre a parte felpuda dela, e a mordi, cheio de ódio.
A pantera girou em círculos, lançando Iglu para fora da caverna, e ali ele ficou caído, enquanto eu a fazia correr atrás de mim, para fora de lá também.
Ela bufava, tentando abocanhar minha cauda também, e me arrastar para a morte, assim como fez para com meu filhote. Assim que ela saiu da caverna, eu vi que as estrelas tomavam conta do céu e velavam por Iglu, que estava ainda no chão, sem acordar. Era noite. Voltei-me para o animal e vi que era o mesmo que atacara a mim e a Iglu no deserto no outro dia; possuía o mesmo corte na orelha que meu filho fizera naquele animal.
Subi sobre o corpo da fera, enquanto, em vão, ela tentava me ferir. Eu rasguei suas costas inteiras, arrancando pelos, pele e deixando o sangue umedecer minhas patas. Ela guinchava, reclamando da dor alucinante, e erguendo suas garras para alcançar minha face. Eu desviava rapidamente, mas houve um momento no qual ela conseguiu tocar-me com suas patas, rasgando a pele sob meu queixo e me arrastando para a sua frente. Impiedosa, ela cravou as presas na minha garganta, fechou o maxilar e começou a me sacudir de um lado para o outro. Senti a pele de meu pescoço tentar se rasgar. Dei uma patada num dos grandes olhos viperinos e amarelados da pantera, grunhindo e cegando-a. Ela rugiu de dor, enquanto eu me desvencilhava de sua mordida e abocanhava sua garganta. O sangue veio ativar meus instintos de caçador, e ferrei as presas ainda mais fundo. Iglu se ergueu de um sobressalto, observando que eu precisava de ajuda, e imediatamente saltou sobre a pantera amarronzada, abraçando seu pescoço com a maior força que tinha. Mas em poucos instantes a pantera notou que estava ali e arrastou-nos ambos para fora dela. Rosnando, ela voltou-se para nos levar até a Clareira Obscura. 
-Oh - Iglu gemeu, olhando para mim, temeroso. -, isso não é bom. 


Demorou um dia e meio para que chegássemos lá em cima, de modo que o sol estava a pino quando observamos a Clareira Obscura. 
Tratava-se de um local todo repleto de terra negra, seca. Os animais circulaam de um lado para o outro, todos lobos atarracados, ossudos, com pelos negros, cinzentos e manchados. Tinham focinhos menores e orelhas maiores do que os nossos, e presas muito grandes, afiadas e tortas. As garras eram gigantescas, e em alguns animais até havia sangue nelas. Eu estremeci só de olhar para todos eles. Olhos vermelhos e da cor de caramelo faiscavam, exibindo um absurdo desejo de matar e rasgar em dois. Carregavam pequenos faisões e partes de cervos mortos, diretamente para uma caverna de rocha negra. 
Quando a gigantesca fera amarronzada nos lançou aos pés de todos aqueles lobos esquisitos, eles nos encararam com feições odiosas e enojadas, e um grande, porém atarracado lobo negro, de focinho partido no meio com uma longa cicatriz, veio encontrar com o animal selvagem que rosnava para nós.
-O que aconteceu, Golem? - o lobo negro indagou, em voz baixa e ameaçadora. Torceu o nariz para nós dois. - Por que você não está lá em baixo, cuidando para que nenhum destes vermes apareça por aqui?
-Vim trazê-los - disse Golem, nos olhando com seus fundos e perigosos olhos amarelos. -, porque estavam tentando subir o Monte das Sombras.
-E... Por que fariam isso? - o animal nos olhou, exibindo os dentes e soltando uma gargalhada rouca e perversa que me disse que precisávamos sair dali o mais rápido possível. E tirar meu filho daquele lugar horrível. - Ninguém contou aos dois filhotes que nunca conseguiriam subir tudo sem        serem capturados?!
-Viemos buscar um filhote - disse Iglu, se erguendo de seu pequenino ponto na rocha negra e encarando o lobo negro e perverso. - O filhote deste lobo aqui. Não viemos atacar, nem roubar nada. Viemos aqui para poder encontrá-lo e levá-lo para casa.
-Se vieram encontrar um filhote, garanto a vocês que está morto - rosnou o animal negro, feroz, crispando os pelos das costas. - Já devemos tê-lo destroçado.
-Precisamos discutir as regras. Vocês não tem o direito de matar nenhum lobo vindo de outras Clareiras! - eu vociferei, recusando-me a acreditar que Pas estava morto. Ele nem meu filho era, eu devia ter cuidado mais dele. Não deveria ter me afastado dele, nem fugido da Clareira. Isso não teria acontecido ao meu filhote. 
-Escute aqui, seu saco de pulgas metido a líder de alguma coisa - o animal de pelagem negra disse, irritado. - Você não tem o direito de mudar as nossas regras! Se algum dos seus lobinhos maricas aparecer por aqui, o destruiremos pelo bem de nossa Clareira. Está me entendendo?
-Não, não estou! - eu quase colei meu focinho no dele, e bufei com força. - Você também não tem o menor direito de matar nenhum dos nossos lobos. Eu vim buscar o meu filho. E, se ele estiver morto, retalharei tanto a você quanto a todos os seus lobos em vingança.
-Mas que animalzinho atrevido você trouxe para mim, Golem! - riu o lobo negro. - Vejo como sua idiotice o leva a demonstrar coragem. Estúpidos, ambos eles! - ele lançou um olhar assassino para a pantera amarronzada, que aproveitava o espetáculo de insultos sentada e atenta. - Jogue-os nas celas.
Eu ameacei mordê-lo, e ele retraiu seu corpo num movimento instintivo. - Quando eu encontrarei meu filho, seu saco de pulgas?! 
Mas Golem já nos arrastava, puxados pelos cangotes como filhotes, até uma imensa caverna negra com celas enferrujadas. Tremendo, eu e Iglu nos encaramos, dizendo um ao outro que jamais voltaríamos a Lucem.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Capítulo 5: Domínios dos Lobos

Me ergui de um salto, apavorado. Meu coração batia em meu peito tão forte que eu temia que o Buscador fosse ouvir. - Mas como assim, está na Clareira Obscura?!
Ao lado do Buscador vinha uma jovem loba de pelos claros, Gaye, uma das melhores amigas de meu filho. - Akra, Pas e eu brincamos com alguns valentões que nós conseguiríamos entrar e sair vivos da Clareira Obscura. Era só uma brincadeira para nós, e estava combinado que seria também para eles, depois todos nós rimos juntos, mas depois os valentões encostaram Pas contra a parede. Queriam que ele fosse mesmo até a Clareira Obscura e voltasse vivo. Ele me disse, embora eu tentasse impedi-lo, que voltaria por volta de meio-dia. Mesmo assim, ele ainda não voltou, e tenho medo de que os lobos de lá tenham pego meu amigo. O senhor precisa ir resgatá-lo, senhor Akra!
Estremeci de terror só de pensar que poderia morrer lá. Mas Pas era meu filho, não importava que fosse de minha amiga e quase-companheira, e eu destroçaria a Clareira inteira se fosse necessário para que encontrasse meu filho. Eu o amava mais que tudo na vida, e, mesmo que Iglu fosse meu filho de sangue, uma parte de meu coração pertencia àquele jovem lobinho. Saí, disparado, de meu abrigo, correndo ao lado dos dois lobos, espumando de fúria, até chegar, finalmente, na Clareira.
Todos estavam preocupados comigo, pelo visto, já que soltaram um suspiro de alívio quando me viram. Mas eu nem liguei, fui apenas para a toca de Iglu e lati, desesperado para que me atendesse. Tinha medo de que ele já soubesse que era meu filho. Aí seria mais uma coisa com a qual me preocupar.
Iglu abriu a porta, me olhou e desviou o olhar, com voz ríspida. – O que você quer, Akra?
-Ela já te contou? Sobre tudo?
Ele fez que sim com a cabeça, e já ia fechar a porta na minha cara quando eu pus a pata na frente. Justamente a pata que eu havia ferido quando estava correndo até o deserto. Uma dor alucinante me atingiu, e eu gani. – Isso não é hora de ficar bravo comigo, justamente porque eu sou seu líder. Como você cuidou tão bem da Clareira enquanto eu estava ausente, me recuperando, que agora, quando eu preciso de meus melhores guerreiros para uma expedição, vou ter de chamá-lo. Iglu, venha comigo buscar Pas na Clareira Obscura, eu lhe peço. Isso nos dará mais chances de nos conhecermos... Filho.
Ele assentiu, embora que relutante, e tive cada vez mais certeza de que ele apenas ia comigo porque eu era o líder da Clareira aonde ele vivia. 
-Vamos seguir viagem, então. Não podemos perder tempo, não é mesmo, Akra? 
Seguimos em direção norte por muito tempo. Passamos por um terreno arenoso desconfortável. Várias pedrinhas cinzentas raspavam minhas patas, fazendo com que elas ardessem como se em chamas. Passamos por uma terra de rochas mais claras e coloridas, mas que ainda assim voavam para cima quando pisávamos nela, tentando nos cegar. 
Mas por nenhuma das dores do mundo eu desistiria do meu filhote querido. 
Iglu permaneceu calado ao longo de toda a viagem, e nunca voltava seus olhos verdes-água para mim. Quando olhei para ele uma vez, notei que evitava olhar para mim, e mantinha-se tenso. Uma cicatriz fina, que eu nunca havia visto, brilhava sobre seu olho esquerdo. Foi quando eu notei que aquela era a cicatriz que a enorme pantera marrom que nos atacara deixara no olho de meu pobre filho.
E agora ela tentava mostrar para mim que ele tentara me defender a todo custo. Senti-me culpado por não tê-lo deixado saber de nada, ainda que soubesse que nós dois havíamos sido vítimas daquela mentira, que durara por toda a vida do pobre lobo branco. Eu queria simplesmente gritar com ele e dizer que eu não sabia de nada, assim como ele, e que ele parasse de me ignorar. Mas eu sabia que ele me ignoraria, porque.... Porque eu também ignoraria qualquer coisa que me dissessem nessa situação. Eu sabia que ele era igualzinho a mim, e que também faria isso.
Quando, enfim, chegamos no gigantesco monte de rocha e terra negras, minhas patas sangravam e tanto eu quanto Iglu havíamos emagrecido alguns quilos, o que nos deixou quase sem energia para a escalada. O sol estava a pino e sofremos muito para andar pelo monte. 
Quando nos encontrávamos aproximadamente no primeiro oitavo da montanha pertencente à Clareira Obscura, eu ergui o focinho para o céu e vi que os primeiros resquícios de luar tingiam-no de prateado. Estava anoitecendo, e rápido. Os lobos valentes que já haviam viajado e suportado o caminho até a Clareira mais mortífera de todas contavam, se chegassem vivos, que pelo seu rumo eles encontravam serpentes, camundongos e até animais maiores e mais ferozes à noite. Ou seja, precisávamos nos esconder logo, antes que algum bicho tentasse nos matar. 
-Precisamos arranjar um lugar para descansar - eu ofeguei, cansado devido à viagem, voltando-me para Iglu. Pela primeira vez desde o momento no qual começamos a viajar, ele olhou para mim, os olhos verdes-água tornando-se quase tão frios quanto os meus, feitos de puro ódio. 
-Está bem. Vamos procurar um lugar para ficar. - Iglu disse, ríspido e rápido. Ele caminhou, com dificuldades, até uma minúscula caverna, também de rocha negra, que abria sua boca nada convidativamente para nós dois. - Vamos ficar aqui.
-Eu não confio nada na aparência desta caverna, Iglu - eu balbuciei, notando que a cicatriz se franziu para mim como se ela gritasse: "confie nele, ele salvou sua vida, seu grande idiota, é seu filho!". Eu baixei a cabeça, e entrei atrás dele.
Nos deitamos um ao lado do outro, e Iglu voltou sua cabeça para outro lado, procurando ignorar minha presença. 
-Vamos, não me trate assim - eu gaguejei, triste, quase implorando que ele me perdoasse, ainda que não houvesse o que perdoar. - Eu não quero que me ignore, fil-
-Haja o que houver, não pronuncie essa palavra - ele rosnou, para depois baixar a voz como se pedisse desculpas apenas pelo tom. - Você não é meu pai.
-Sou, sim, e não tenho culpa de nada nisso. Eu também não sabia.
-Mesmo assim, você nunca vai ser meu pai! - ele vociferou, sem se dar conta de que estava afrontando o próprio líder.
Eu ia responder, mas um rosnado grave interrompeu meus pensamentos. Iglu voltou seu olhar gélido para trás, e suas feições se formaram em puro pânico. - Akra...!
Voltei minha face para trás de nós, e vi um par de olhos amarelos observar-nos. Uma porção bem grande de dentes esbranquiçados nos deu a impressão de que uma boca foi escancarada num rugido feroz. Um segundo depois, meu filho estava sendo arrastado por garras afiadas em direção à pantera. - Akra! Me ajude!
Afinal, não era só eu que havia sido salvo por uma pessoa.