O vento batia de modo suave em meu rosto. Pisquei, lambendo
os flocos de neve que pousavam em meu focinho.
As patas trotavam, as garras
afastando gelo e neve para os lados, causando uma mini-nevasca simultânea. Me
sentia cansado, os nervos e músculos doíam, e eu queria dormir por mais alguns
meses na minha toca quentinha, até melhorar de minha dor e poder andar
novamente. Gemendo, prossegui olhando para a frente, até ser atingido com uma
grande bola de neve bem no meio dos olhos.
A lebre que eu seguia dera uma
patada no chão, jogando neve em meu rosto. Rosnando, impulsionei minhas patas,
enquanto ela pensava que eu tinha parado e relaxava, acalmando-se e farejando o
ar em busca do aroma de ervas para comer. Suavizei a força das patas no chão.
Ela tinha bons ouvidos, mas prestar atenção no som era algo que ela não
conseguia fazer muito bem ao ser perseguida.
E me lancei sobre a lebre gorda,
abrindo minha boca com ímpeto assassino.
Firmei as presas ao redor de seu
corpo inerte, sentindo o sabor do sangue quente vertendo em minha garganta.
Lambi a carne fresca e voltei-me para o meu caminho, os músculos ardendo de tanto
correr.
Voltei até o tronco de uma árvore
mais aquecida, bufando, e me lembrei que, por mais cansado que estivesse, ainda
teria muito trabalho a fazer.
Permaneci sob a árvore, deitado,
aquecido e restaurando ao menos um oitavo de minhas forças, para então me
erguer, com dores nas juntas, e trotar até a Clareira.
A minha Clareira.
Lucem era um local seguro e
familiar. Nada de assustador rondava a Clareira da Luz, e todos eram honestos e
bons ali, sempre ajudando uns aos outros. Levei a lebre até um buraco cheio de
presas, lambi o sangue da boca e caminhei até minha toca.
Eu morava em uma grande caverna, uma formação rochosa
obscura, que poderia assustar quem passasse. Mas isso era por fora.
Adentrei a caverna com alegria, e
vi mil vagalumes voarem, acomodados e quentes na pedra, e iluminarem tudo com
seus traseiros cintilantes.
Havia diversas coisas na minha
toca. Eu tinha uma cama feita de musgo e algodão, que eu trocava diariamente, e
uma cama para meu filho, Pas. Eram as duas aconchegantes, macias, brilhando com
as mais belas variações macias e quentes da seda, feitas especialmente por cem
bichos-da-seda.
Ouvi um uivo profundo vindo do fundo da caverna, e trotei
até aquele som. Ouvi que ele chegava cada vez mais perto de mim, também.
Pas chegou até mim, lambendo meu rosto. Era uma saudação
especial que nós havíamos criado para que pudéssemos nos acomodar melhor na
caverna grande e assustadora por fora, mas linda por dentro.
-Olá, pai. Como foi o dia? -
perguntou ele, lambendo minha testa. - Caçou muito?
Grunhi em despeito ao meu
trabalho diário. - Cacei uma lebre, passei por Gaudium, a Clareira da Alegria,
e Claro, a Clareira da Lucidez. Buscava falar com alguns líderes. Estamos
precisando de um pouco mais de caça. Está escassa demais, e também precisamos
de um tratamento para as novas doenças crônicas. Mas e você, filhote? Caçou
alguma coisa hoje?
-Não, na verdade. Kayuz não me
deixou caçar, aquela velha chata. Mesmo assim, eu cacei um camundongo, e,
quando ninguém estava vendo, coloquei-o na pilha de caça.
Sorri e lambi sua testa felpuda,
deixando-a úmida e espessa. - Muito bem, filho. Nunca desista de alguma coisa
só porque alguém não o deixa fazer aquilo. - me ergui, com dores nas juntas. -
Eu tenho de ir cuidar das coisas, dos remédios. Volto mais tarde. Ah! Procure
caçar mais alguns camundongos, vamos ver suas habilidades para caçar.
Saí de minha caverna e me dirigi
diretamente para a toca de Kayuz, a velha loba responsável pelo abrigo aonde os
filhotes ficavam em Lucem. Ela mantia meu filho e os de todos os outros lobos a
salvo de animais horríveis, protegendo-os a todo custo, mas muitas vezes seu
faro errava, e ela protegia os filhotes de animaizinhos mínimos. Abri a porta
de líquen com uma cabeçada.
Kayuz estava sentada, meditando,
e arregalou os olhos para mim. Com voz mofada, grunhiu. - Olá, senhor Akra. O
que deseja? Hoje Pas teve um dia agradável, mas não o deixei caçar, pois senti
cheiro de um animal rondando a mata.
-Qual animal? - eu torcia para
que fosse um urso ou uma pantera negra. Aí, Kayuz teria razão em proteger meu
filho.
-Um gato selvagem, meu senhor. – ela disse, indiferente ao
erro. Normalmente, ela nunca notava que errara em proteger as crianças.
Bufei em desprezo. - Um gato?! Um
gato?! Nem meu filho nem nenhum dos filhos dos outros lobos tem medo de um
gato! Da próxima vez que a senhora sentir cheiro de gato perto da mata, deixe
Pas sair na frente dos outros, e ele o destroçará! Dona Kayuz, nunca mais faça
isto! Meu filho será alguém na vida. Dele surgirá, não importa nada, dele
surgirá um grande lobo que prosseguirá governando a Clareira de Lucem! -
comecei a rosnar bem mais alto do que podia, e Kayuz se ergueu. Tremendo, ela
olhou para mim, como se eu precisasse de um remédio para loucura.
-Senhor Akra - grunhiu ela, com
sua típica e monótona voz. -, seu filho destroçará o próximo gato que eu
farejar. Tenha um bom dia, mas agora eu devo descansar e meditar mais.
Abandonei a toca poeirenta de
Kayuz soltando bufos, e fui para a toca do Doutor Kalion. Era ele quem criava
os remédios para a população local. Na frente de uma barreira de madeira escura
- o Doutor sempre queria escuridão para poder ver melhor o que os remédios
faziam, era louco -, que deveria estar tampando toda a luz de fora, dei duas
patadas e um grunhido curto. Aguardei, ansioso.
A portinha de madeira deu uma
leve abrida, e um grande olho dourado me fitou, de uma maneira assustadoramente
preguiçosa. - Olá, Akra. Quais são os pedidos de hoje?
-Kalion, abra a porta! - grunhi.-
Quero sair daqui de fora. Senão, Iglu voltará a me entediar com aquele papo de
cãozinho de estimação dos humanos.
-Iglu o adora, Akra - tossiu
Kalion. Ele era um imenso lobo vermelho, com um dos olhos costurado porque já
passara por muitos apuros. A pelagem era de um avermelhado clarinho, porque ele
não saía muito ao sol ultimamente.
-Doutor Kalion, termine os
remédios para a epidemia. Fui eu que o autorizei a vir para esta Clareira como
médico. Mas apenas se você ajudasse. Ou será que você se esqueceu?
-Senhor Akra, os remédios ficarão
prontos logo, apenas não estão agora. - sorriu o lobo velhaco. - Agora entre,
vamos conversar.
Ele abriu a porta de madeira.
Hesitante, dei um passo à frente.
-Pata direita, Akra - sorriu mais
uma vez o velho animal. - Não quero que azare minha residência.
-Vou é azarar a sua cara feia se
não parar com isso - grunhi, mal-humorado. Mesmo assim, pisei com a pata
direita na casa pela primeira vez. – Superstições são bobagens inúteis!
-Como vai Pam? E Pas? - perguntou
ele, me servindo metade de uma fruta, repleta de um chá de ervas medicinais.
Recusei, com um sorriso. Aquelas coisas aparentavam ser horríveis, e
cheiravam ainda pior.
-Pam saiu numa expedição de caça.
Fiquei preocupado, fica perto demais das rochas das panteras. Tenho medo de que
alguém cruze com uma delas no caminho. Pas acabou de ser proibido de caçar pela
Sra. Kayuz por causa de um gatinho idiota. - Pam era uma de minhas melhores amigas, e eu gostava
muito dela. Fora uma cadela de rua, mas decidira se tornar uma de nós. Selvagem.
Eu a adorava, e ela também passava todas as horas comigo.
Kalion sorriu, tossindo. - Pas é um jovem forte, mas talvez
a Sra. Kayuz tenha razão. Um gato selvagem nem sempre é tão frágil e fraco
assim.
Bufei. - O senhor está enganado.
Pas seria capaz de matar um touro, e não um gato? - ri. - Kayuz nem sempre tem
razão, Kalion.
Foi quando eu ouvi um som
aterrorizante. Como se fosse uma trombeta, soou pela Clareira como se apenas
quisesse me apavorar, e a mais ninguém. Tremi feito um débil mental, e senti
meus joelhos fraquejarem. Era como se estivesse ouvindo o pior som do mundo.
-Pam está morta!
Nenhum comentário:
Postar um comentário