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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Capítulo 8: Domínios dos Lobos

Acordei de novo, com um estrondo surdo que me fez saltar e arrepiar meus pelos cinzentos. Grunhi, vendo apenas a escuridão à minha volta e tentando me lembrar de onde eu me encontrava.
Logo, no entanto, me lembrei; estava preso na Clareira Obscura, junto de meu filho biológico, Iglu, meu outro filho, adotivo, Pas, Soet, uma lobinha da idade do segundo filho, de pelos cinzentos e grandes olhos verdes, e Atala, uma cachorra que estava com graves problemas respiratórios e que deveria estar presa naquele lugar horrível há muito, mas muito tempo mesmo.
O estrondo surdo que eu ouvira fora produzido por uma criatura do lado de fora, que batia violentamente contra as grades. Queria nos provocar Abri melhor os olhos, e vi que era um lobo adulto, de pernas longas e finas e pelos e olhos negros como tudo naquele local. Decidi acordar os outros, correndo feito um louco, e contar-lhes o que estava acontecendo. Precisávamos agir agora, ou o disfarce de animais raivosos não conseguiria ser concluído. 
Lati bem alto, e todos me ouviram e acordaram, alarmados. Pas observou que estava concluindo meu disfarce, e decidiu "berrar" por ajuda. - Ei, amigo! - chamou, correndo de mim. Atala começou a salivar o suficiente para que eu próprio a confundisse com uma cadela raivosa. Contraímos os músculos da face. Iglu andava de maneira rígida, mancando, e salivava e latia. Todos nós estávamos atuando muito bem. - Socorro! Não reconhece dois lobos da Clareira Obscura?
-Vocês são daqui?! - alarmado, o animal chamou Pas e Soet, que estavam correndo em círculos de mim e de Iglu, dando passagem para que fossem pelas grades. Atala, babando muito, tentou morder a pata do lobo, que afastou os pequeninos com cuidado. - Venham, temos que enxotar esses lobos! Estão com raiva! Vão avisar a Yalan, não vão? - ele disse, concluindo sem saber uma boa parte do plano. 


Passamos a manhã inteira aguardando e tentando destruir a prisão. Salivamos tanto que nossa boca chegou a arder. Mas, quando Yalan finalmente apareceu na nossa frente e tentou nos examinar, os músculos pararam de doer, continuamos a salivar e eu até tentei - e quase consegui - abocanhar uma das patas do líder de pelagem negra e focinho ferido.
-Por Deus! - ele se voltou para Soet e Pas, alarmado. - Mas como vocês descobriram essa raiva?
-Acabamos entrando aí dentro para provocá-los - Yalan balançou a cabeça em aprovação - e aí eles acordaram. Tentaram nos matar!
-Isso é muito interessante, pequenos. E se enviássemos esses lobos raivosos ainda vivos, para que infestem as outras Clareiras? - sorrindo, ele aguardou alguns segundos, enquanto meu filho e sua amiga balançavam a cabeça, concordando com a ideia. Ainda bem que Pas raciocinava rápido.
-Poderíamos observar enquanto alguma das panteras enxota os prisioneiros? - disse Soet, doce, porém de rapidíssimo raciocínio.
-Mas é claro, devo tudo a vocês, meus pequeninos! Vocês salvaram a Clareira Obscura. - em seguida, ele soltou um uivo tão alto que quase estourou nossos tímpanos. Eu me assustei, e, para disfarçar, enfiei meu focinho na grade, tentando morder Yalan (Na verdade, eu bem que queria morder Yalan por ter me ameaçado, me chamado de estúpido, dito que provavelmente teria matado meu filho e me atirado numa cela).
Em seguida, vinha Golem, a imensa pantera amarronzada e musculosa trotando na neve. Aparentemente, o ambiente do felino não era ali: na verdade, panteras marrons como Golem eram raras próximas do Círculo das Clareiras. Ela deveria ter sido obrigada a viver naquele local por conta de alguma destruição na sua região natal, ou por causa da caça de panteras que normalmente havia próximo de suas cavernas. Naquele momento, eu senti pena de Golem. Ele estava tiritando de frio, mas desafiava os limites de sua saúde caminhando, submisso, até Yalan. Eu continuava tentando morder o lobo negro, e Atala veio me puxar para mais uma perseguição divertida.
Na verdade, aquela imitação de animais raivosos era, de fato, uma coisa engraçada e prazerosa; eu perseguia Atala, ela me perseguia, Iglu também corria conosco, e gastávamos nossa energia nisso. Eu já podia sentir o vento zunir em minhas orelhas com aquelas brincadeiras.
-Golem, leve esses lobos raivosos para o pé do Monte Negro. - quando a criatura sorriu de maneira assassina, o lobo negro sacudiu a cabeça. - Não, Golem. Eu quero que eles cheguem vivos, e que você os abandone à própria sorte, sem encostar uma garra neles.
Yalan chegou mais perto das grades, e deixou que Golem arrancasse uma delas com as garras. Todos nós saímos em disparada, e eu corri atrás do líder da Clareira Obscura para tentar arrancar um chumaço de pelos de sua enorme cauda. Infelizmente, não o alcancei, e desisti. Ele berrava por socorro, e depois queria chamar a mim e a Iglu de maricas?!
Golem nos empurrou com a cabeça. Eu controlei Atala e Iglu, para que eles não tentassem morder a pantera marrom. 
Descemos com cuidado o Monte Negro, e Golem tomou o máximo de cuidado para que não nos feríssemos com nada. Rochas, cascalho e tudo o mais, ele empurrava para o lado, na intenção de evitar que nos machucássemos. Uma hora ou outra, eu via Soet e Pas, seguindo-nos ao longe. Não queriam que, quando chegássemos ao pé da montanha, fossem despachados para a Clareira Obscura de novo.
Latindo, eu vi que Atala começou a se cansar. Ela ofegava, tossia, mas não parava de salivar e tentar se desvencilhar, grunhindo e latindo, de Golem. A pantera quase não sabia o que fazer com a cadela desordeira. Mas ela me olhava com seus olhos espertos, da cor do caramelo, e eu sabia que ela sobreviveria o suficiente para escapar daquele inferno. 


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Capítulo 7: Domínio dos Lobos

Fomos atirados com força dentro da caverna, que era coberta de grades enferrujadas, e nos perdemos naquela escuridão doentia. Meus olhos simplesmente não conseguiam se adaptar àquele local triste, e eu girava em círculos num turbilhão de emoções. Primeiro, sentia ódio de Yalan, o líder da Clareira Obscura, o lobo negro e atarracado que nos tratara mal e como intrusos. Segundo, sentia medo, porque sabia que ia morrer naquele lugar horrível. Terceiro, sentia-me culpado, pois meu filho adotivo provavelmente morrera e meu filho verdadeiro estava prestes a morrer por minha causa.
-Quem está aí? - indagou uma voz fina, doce e aveludada, porém fraca e desnutrida.
-Eu pergunto a mesma coisa! - disse outra voz, mais amarga e infeliz, porém mais forte do que a primeira.
Uma terceira voz apenas gemeu, resfolegando, com falta de energia e de oxigênio.
-Somos Akra e Iglu - eu disse. Depois de um momento, reconheci a segunda voz: - Pas? É você, filho?!
Depois que meus olhos se acostumaram à falta de luz do local, eu vi meu filho agachado, perto de uma loba pequena, de sua idade, de pelagem cinzenta e grandes e doces olhos verdes como esmeraldas. Ao lado deles, um corpo maior, de pelagem rala e fina e olhos semicerrados. Ofegava e gemia ainda mais alto do que antes, como se quisesse dialogar conosco.
-Pai! - meu filho adotivo choramingou, rastejando até mim. Estava dez quilos mais magro, com as costelas aparentes e os olhos lacrimejantes. - Você... Veio me tirar daqui?
-Claro que vim - aninhei o filhote junto ao meu peito. - Eu não poderia abandoná-lo neste covil de monstros, não é mesmo?
-Obrigado - ele disse, mais aliviado. - Mas não podemos abandonar esses dois aqui, pai. Temos de levá-los para longe daqui, ou serão todos mortos pelos lobos da Clareira Obscura. - caminhando até a lobinha cinzenta, ele disse com a voz rouca: - Esta aqui é Soet, e esta aqui - ele me guiou até o corpo resfolegante, e fez cara de pena. - É Atala.
Eu vi, com desgosto, a coleira de espinhos, feita de couro verde claro, ferindo a garganta da pobre loba. Ou melhor... Cachorra. Eu sabia que, com aquela coleira, não poderia ser um lobo. E principalmente com aquele nome, que nada significava.
-Ela está morrendo, Pas. Não conseguirá fazer o caminho de volta. Vamos deixá-la aqui.
Pas ficou horrorizado. Senti que havia dito algo idiota na frente de meu filho e me calei. Não consegui mais abrir minha boca.
-Arranque esta maldita coleira e ela conseguirá falar alguma coisa, quem sabe até possa se recuperar em pouco tempo - resmungou Soet, atrevida, se aproximando de mim e da pobre criatura quase morta.
Fiz uma bendita força que não sei de onde tirei, mas consegui estourar o fecho sem matar a cadela de pelagem curta. Resfolegando ainda mais, ela recebeu o oxigênio de maneira grata, e abriu a boca para poder aspirar ainda mais.
Passamos mais de uma hora ao redor de Atala. Eu sabia que ela não conseguiria falar nada. Ela me olhava de modo doce, e sorria. Depois de todo este tempo, observei que estava anoitecendo e ofeguei para os outros, que aguardavam de olhos cerrados: - Se ela não falar agora, vamos acabar gastando o dia.
-Eu consigo falar - disse Atala, com voz rouca, ainda sorrindo. Seu sorriso me fez estremecer. - Obrigada por.... Por me curar - ela gemeu alto, e eu quase corri para ajudá-la. Iglu, entretanto, foi mais rápido.
-O que houve, Atala? - indagou ele, de forma doce.
-Dói - ela disse, fechando os olhos. - Dói nas minhas coxas. Enfim, posso me levantar agora. - ela caminhou, mancando, até uma das grades, e encostou sua cabeça num dos buracos dali.
Eu também trotei até ela, e me deitei ao seu lado. Todos os outros foram dormir no mesmo instante, e eu resmunguei por conta da provocação. - Me desculpe por ter sido grosso agora há pouco, Atala.
-Sem problemas.... Qual o seu nome?
-Meu nome é Akra, sou líder da Clareira de Lucem. 
-Oh, um líder! - ela disse, alegre. Em seguida, teve um acesso de tosse, inspirou profundamente e disse. - Infelizmente, eu sofro de asma... Não consigo ficar muito tempo conversando.... - mais um acesso de tosse violento, que me obrigou,a unir meu corpo ao dela, na intenção de aquecê-la e fazer com que ficasse melhor. 
-Venha, você tem que dormir, Atala. Amanhã encontraremos uma maneira de fugir.
Ela me olhava de maneira triste e desesperada. - Não conseguiremos.
-Por que não?
-Estou aqui há alguns meses... E não consegui fugir.... - mais tosse. Exasperada, ela começou a tentar respirar, sem êxito, até conseguir inalar o oxigênio tão precioso para ela. Deitei, ao seu lado, na rocha negra, e baixei a cabeça com cuidado. Ela ficou olhando para mim por alguns instantes, sorrindo como sempre fazia, até cerrar seus grandes olhos cor de caramelo e dormir profundamente.

Acordei com um ronco absurdamente rouco. Olhei para meu lado. Atala havia rolado em outra direção, e resfolegava baixinho. Mas não roncava. Examinei de cabo a rabo o local aonde estávamos, mas não encontrei o perturbador de meu sono. Erguendo-me, dolorido, caminhei até Pas, que estava embolado ao redor das próprias patas e não fazia som algum. Soet, estirada na pedra escura, os pelos cinzentos banhados pela luz da lua, também não emitia som. O único que restava era o que estava, de fato, roncando muito alto. "Iglu", pensei, sem ficar surpreso.
Fui até Atala de novo, e me deitei ao seu lado. Ela inspirou com dificuldade, mas tornou a se acalmar. Fechei os olhos, mas, graças ao meu filho, não consegui pegar no sono novamente. 
Descobri, então, que estava morrendo de medo. Meu coração se consumia loucamente e eu simplesmente pensava que jamais sairíamos daquele lugar. "Tenho de encontrar uma saída antes que eles acordem, pode ser que não voltemos a dormir neste mundo amanhã", pensei desesperado.
Então me ergui, e comecei a apertar os olhos para vasculhar um lugar para sair dali. Sabia que nenhum de nós conseguiria sair pela grade. Caminhei por horas ao lado de cada uma das paredes da caverna diminuta, e não encontrei um buraco sequer. Então olhei para Pas e Soet, um ao lado do outro, dormindo sem fazer barulho. Observei o tamanho de ambos os animaizinhos e sorri. Maquinei a ideia brilhante em minha cabeça. E me surgiu uma luz; vejam só!
Disparei até o corpo de Atala e cutuquei-a com meu focinho negro, fazendo com que acordasse e olhasse para mim. Até que seus olhos se ajustassem novamente à escuridão, ela perguntou quem estava ali. Permaneci calado, até que ela finalmente me viu à sua frente.
-Akra? – ela indagou, confusa e sonolenta. – O que houve? Por que está me acordando? Já é de manhã? Eu dormi demais? –ela olhou para fora e suspirou, ao observar que ainda era de noite e a lua cintilava no céu. – O que foi, Akra...?
-Eu descobri! – sussurrei, querendo gritar. Uivar para a lua que eu havia descoberto uma maneira de sair dali não era uma má ideia. Mas eu sabia que podia acordar os guardas ou até mesmo Golem, a pantera-guarda.
-Como assim? O que você descobriu? – ela tossiu.
-Como sair daqui! Eu achei uma saída!
-Isso é impossível, Akra, você deve estar sonhando ainda. – ela se virou para o outro lado, mas eu a cutuquei ainda mais e ela voltou a olhar para mim, incrédula. – Você não pode ter achado nada.
-Eu não achei; eu planejei!
-Não acho que seja uma boa ideia, Akra...
-Confie em mim! – eu disse. E, de fato, eu estava desesperado para que aprendesse a confiar em mim.
-Está bem, Akra. O que é?
-Podemos soltar Pas e Soet na Clareira Obscura. Pas é um lobo preto como todos esses outros, e Soet é cinzenta, cor que também será aceita. Eles podem se desfarçar de animais locais, e dizer a Yalan que estamos contaminados com alguma doença muito séria... Raiva, por exemplo. E, então, seremos lançados até o pé do Monte das Sombras, e escaparemos!
-E se eles preferirem nos matar?!
-Não vão - eu disse. - Uma doença, conforme as leis da saúde que até esses monstros seguem, deve ser tratada com o exílio dos doentes.
-Mas e os sintomas?
-Basta fingir ter dor, ameaçar abocanhar Yalan, latir agudo, feito um desmiolado, ficar nervoso, arisco, e contrair os músculos das pernas e do rosto, e espumar pela boca. É fácil. 
-Pode funcionar....
-Vamos combinar com os outros.
E, assim, nos unimos para escapar daquele inferno de grades e monstros negros.

Capítulo 6: Domínios dos Lobos

Por alguns instantes, eu fiquei paralisado, sem saber o que fazer para salvar meu próprio filhote. Observei enquanto a pantera se engalfinhava com ele, mordendo sua cauda e tentando arrancar um pedaço de sua orelha ou de seu focinho. Eu observei a cauda amarronzada - de novo, uma cauda marrom?! - da fera sacudir-se de contentamento, chegando perto de mim, enquanto Iglu procurava sair de perto do animal. Meu cérebro funcionou velozmente, e eu me lancei sobre a parte felpuda dela, e a mordi, cheio de ódio.
A pantera girou em círculos, lançando Iglu para fora da caverna, e ali ele ficou caído, enquanto eu a fazia correr atrás de mim, para fora de lá também.
Ela bufava, tentando abocanhar minha cauda também, e me arrastar para a morte, assim como fez para com meu filhote. Assim que ela saiu da caverna, eu vi que as estrelas tomavam conta do céu e velavam por Iglu, que estava ainda no chão, sem acordar. Era noite. Voltei-me para o animal e vi que era o mesmo que atacara a mim e a Iglu no deserto no outro dia; possuía o mesmo corte na orelha que meu filho fizera naquele animal.
Subi sobre o corpo da fera, enquanto, em vão, ela tentava me ferir. Eu rasguei suas costas inteiras, arrancando pelos, pele e deixando o sangue umedecer minhas patas. Ela guinchava, reclamando da dor alucinante, e erguendo suas garras para alcançar minha face. Eu desviava rapidamente, mas houve um momento no qual ela conseguiu tocar-me com suas patas, rasgando a pele sob meu queixo e me arrastando para a sua frente. Impiedosa, ela cravou as presas na minha garganta, fechou o maxilar e começou a me sacudir de um lado para o outro. Senti a pele de meu pescoço tentar se rasgar. Dei uma patada num dos grandes olhos viperinos e amarelados da pantera, grunhindo e cegando-a. Ela rugiu de dor, enquanto eu me desvencilhava de sua mordida e abocanhava sua garganta. O sangue veio ativar meus instintos de caçador, e ferrei as presas ainda mais fundo. Iglu se ergueu de um sobressalto, observando que eu precisava de ajuda, e imediatamente saltou sobre a pantera amarronzada, abraçando seu pescoço com a maior força que tinha. Mas em poucos instantes a pantera notou que estava ali e arrastou-nos ambos para fora dela. Rosnando, ela voltou-se para nos levar até a Clareira Obscura. 
-Oh - Iglu gemeu, olhando para mim, temeroso. -, isso não é bom. 


Demorou um dia e meio para que chegássemos lá em cima, de modo que o sol estava a pino quando observamos a Clareira Obscura. 
Tratava-se de um local todo repleto de terra negra, seca. Os animais circulaam de um lado para o outro, todos lobos atarracados, ossudos, com pelos negros, cinzentos e manchados. Tinham focinhos menores e orelhas maiores do que os nossos, e presas muito grandes, afiadas e tortas. As garras eram gigantescas, e em alguns animais até havia sangue nelas. Eu estremeci só de olhar para todos eles. Olhos vermelhos e da cor de caramelo faiscavam, exibindo um absurdo desejo de matar e rasgar em dois. Carregavam pequenos faisões e partes de cervos mortos, diretamente para uma caverna de rocha negra. 
Quando a gigantesca fera amarronzada nos lançou aos pés de todos aqueles lobos esquisitos, eles nos encararam com feições odiosas e enojadas, e um grande, porém atarracado lobo negro, de focinho partido no meio com uma longa cicatriz, veio encontrar com o animal selvagem que rosnava para nós.
-O que aconteceu, Golem? - o lobo negro indagou, em voz baixa e ameaçadora. Torceu o nariz para nós dois. - Por que você não está lá em baixo, cuidando para que nenhum destes vermes apareça por aqui?
-Vim trazê-los - disse Golem, nos olhando com seus fundos e perigosos olhos amarelos. -, porque estavam tentando subir o Monte das Sombras.
-E... Por que fariam isso? - o animal nos olhou, exibindo os dentes e soltando uma gargalhada rouca e perversa que me disse que precisávamos sair dali o mais rápido possível. E tirar meu filho daquele lugar horrível. - Ninguém contou aos dois filhotes que nunca conseguiriam subir tudo sem        serem capturados?!
-Viemos buscar um filhote - disse Iglu, se erguendo de seu pequenino ponto na rocha negra e encarando o lobo negro e perverso. - O filhote deste lobo aqui. Não viemos atacar, nem roubar nada. Viemos aqui para poder encontrá-lo e levá-lo para casa.
-Se vieram encontrar um filhote, garanto a vocês que está morto - rosnou o animal negro, feroz, crispando os pelos das costas. - Já devemos tê-lo destroçado.
-Precisamos discutir as regras. Vocês não tem o direito de matar nenhum lobo vindo de outras Clareiras! - eu vociferei, recusando-me a acreditar que Pas estava morto. Ele nem meu filho era, eu devia ter cuidado mais dele. Não deveria ter me afastado dele, nem fugido da Clareira. Isso não teria acontecido ao meu filhote. 
-Escute aqui, seu saco de pulgas metido a líder de alguma coisa - o animal de pelagem negra disse, irritado. - Você não tem o direito de mudar as nossas regras! Se algum dos seus lobinhos maricas aparecer por aqui, o destruiremos pelo bem de nossa Clareira. Está me entendendo?
-Não, não estou! - eu quase colei meu focinho no dele, e bufei com força. - Você também não tem o menor direito de matar nenhum dos nossos lobos. Eu vim buscar o meu filho. E, se ele estiver morto, retalharei tanto a você quanto a todos os seus lobos em vingança.
-Mas que animalzinho atrevido você trouxe para mim, Golem! - riu o lobo negro. - Vejo como sua idiotice o leva a demonstrar coragem. Estúpidos, ambos eles! - ele lançou um olhar assassino para a pantera amarronzada, que aproveitava o espetáculo de insultos sentada e atenta. - Jogue-os nas celas.
Eu ameacei mordê-lo, e ele retraiu seu corpo num movimento instintivo. - Quando eu encontrarei meu filho, seu saco de pulgas?! 
Mas Golem já nos arrastava, puxados pelos cangotes como filhotes, até uma imensa caverna negra com celas enferrujadas. Tremendo, eu e Iglu nos encaramos, dizendo um ao outro que jamais voltaríamos a Lucem.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Capítulo 5: Domínios dos Lobos

Me ergui de um salto, apavorado. Meu coração batia em meu peito tão forte que eu temia que o Buscador fosse ouvir. - Mas como assim, está na Clareira Obscura?!
Ao lado do Buscador vinha uma jovem loba de pelos claros, Gaye, uma das melhores amigas de meu filho. - Akra, Pas e eu brincamos com alguns valentões que nós conseguiríamos entrar e sair vivos da Clareira Obscura. Era só uma brincadeira para nós, e estava combinado que seria também para eles, depois todos nós rimos juntos, mas depois os valentões encostaram Pas contra a parede. Queriam que ele fosse mesmo até a Clareira Obscura e voltasse vivo. Ele me disse, embora eu tentasse impedi-lo, que voltaria por volta de meio-dia. Mesmo assim, ele ainda não voltou, e tenho medo de que os lobos de lá tenham pego meu amigo. O senhor precisa ir resgatá-lo, senhor Akra!
Estremeci de terror só de pensar que poderia morrer lá. Mas Pas era meu filho, não importava que fosse de minha amiga e quase-companheira, e eu destroçaria a Clareira inteira se fosse necessário para que encontrasse meu filho. Eu o amava mais que tudo na vida, e, mesmo que Iglu fosse meu filho de sangue, uma parte de meu coração pertencia àquele jovem lobinho. Saí, disparado, de meu abrigo, correndo ao lado dos dois lobos, espumando de fúria, até chegar, finalmente, na Clareira.
Todos estavam preocupados comigo, pelo visto, já que soltaram um suspiro de alívio quando me viram. Mas eu nem liguei, fui apenas para a toca de Iglu e lati, desesperado para que me atendesse. Tinha medo de que ele já soubesse que era meu filho. Aí seria mais uma coisa com a qual me preocupar.
Iglu abriu a porta, me olhou e desviou o olhar, com voz ríspida. – O que você quer, Akra?
-Ela já te contou? Sobre tudo?
Ele fez que sim com a cabeça, e já ia fechar a porta na minha cara quando eu pus a pata na frente. Justamente a pata que eu havia ferido quando estava correndo até o deserto. Uma dor alucinante me atingiu, e eu gani. – Isso não é hora de ficar bravo comigo, justamente porque eu sou seu líder. Como você cuidou tão bem da Clareira enquanto eu estava ausente, me recuperando, que agora, quando eu preciso de meus melhores guerreiros para uma expedição, vou ter de chamá-lo. Iglu, venha comigo buscar Pas na Clareira Obscura, eu lhe peço. Isso nos dará mais chances de nos conhecermos... Filho.
Ele assentiu, embora que relutante, e tive cada vez mais certeza de que ele apenas ia comigo porque eu era o líder da Clareira aonde ele vivia. 
-Vamos seguir viagem, então. Não podemos perder tempo, não é mesmo, Akra? 
Seguimos em direção norte por muito tempo. Passamos por um terreno arenoso desconfortável. Várias pedrinhas cinzentas raspavam minhas patas, fazendo com que elas ardessem como se em chamas. Passamos por uma terra de rochas mais claras e coloridas, mas que ainda assim voavam para cima quando pisávamos nela, tentando nos cegar. 
Mas por nenhuma das dores do mundo eu desistiria do meu filhote querido. 
Iglu permaneceu calado ao longo de toda a viagem, e nunca voltava seus olhos verdes-água para mim. Quando olhei para ele uma vez, notei que evitava olhar para mim, e mantinha-se tenso. Uma cicatriz fina, que eu nunca havia visto, brilhava sobre seu olho esquerdo. Foi quando eu notei que aquela era a cicatriz que a enorme pantera marrom que nos atacara deixara no olho de meu pobre filho.
E agora ela tentava mostrar para mim que ele tentara me defender a todo custo. Senti-me culpado por não tê-lo deixado saber de nada, ainda que soubesse que nós dois havíamos sido vítimas daquela mentira, que durara por toda a vida do pobre lobo branco. Eu queria simplesmente gritar com ele e dizer que eu não sabia de nada, assim como ele, e que ele parasse de me ignorar. Mas eu sabia que ele me ignoraria, porque.... Porque eu também ignoraria qualquer coisa que me dissessem nessa situação. Eu sabia que ele era igualzinho a mim, e que também faria isso.
Quando, enfim, chegamos no gigantesco monte de rocha e terra negras, minhas patas sangravam e tanto eu quanto Iglu havíamos emagrecido alguns quilos, o que nos deixou quase sem energia para a escalada. O sol estava a pino e sofremos muito para andar pelo monte. 
Quando nos encontrávamos aproximadamente no primeiro oitavo da montanha pertencente à Clareira Obscura, eu ergui o focinho para o céu e vi que os primeiros resquícios de luar tingiam-no de prateado. Estava anoitecendo, e rápido. Os lobos valentes que já haviam viajado e suportado o caminho até a Clareira mais mortífera de todas contavam, se chegassem vivos, que pelo seu rumo eles encontravam serpentes, camundongos e até animais maiores e mais ferozes à noite. Ou seja, precisávamos nos esconder logo, antes que algum bicho tentasse nos matar. 
-Precisamos arranjar um lugar para descansar - eu ofeguei, cansado devido à viagem, voltando-me para Iglu. Pela primeira vez desde o momento no qual começamos a viajar, ele olhou para mim, os olhos verdes-água tornando-se quase tão frios quanto os meus, feitos de puro ódio. 
-Está bem. Vamos procurar um lugar para ficar. - Iglu disse, ríspido e rápido. Ele caminhou, com dificuldades, até uma minúscula caverna, também de rocha negra, que abria sua boca nada convidativamente para nós dois. - Vamos ficar aqui.
-Eu não confio nada na aparência desta caverna, Iglu - eu balbuciei, notando que a cicatriz se franziu para mim como se ela gritasse: "confie nele, ele salvou sua vida, seu grande idiota, é seu filho!". Eu baixei a cabeça, e entrei atrás dele.
Nos deitamos um ao lado do outro, e Iglu voltou sua cabeça para outro lado, procurando ignorar minha presença. 
-Vamos, não me trate assim - eu gaguejei, triste, quase implorando que ele me perdoasse, ainda que não houvesse o que perdoar. - Eu não quero que me ignore, fil-
-Haja o que houver, não pronuncie essa palavra - ele rosnou, para depois baixar a voz como se pedisse desculpas apenas pelo tom. - Você não é meu pai.
-Sou, sim, e não tenho culpa de nada nisso. Eu também não sabia.
-Mesmo assim, você nunca vai ser meu pai! - ele vociferou, sem se dar conta de que estava afrontando o próprio líder.
Eu ia responder, mas um rosnado grave interrompeu meus pensamentos. Iglu voltou seu olhar gélido para trás, e suas feições se formaram em puro pânico. - Akra...!
Voltei minha face para trás de nós, e vi um par de olhos amarelos observar-nos. Uma porção bem grande de dentes esbranquiçados nos deu a impressão de que uma boca foi escancarada num rugido feroz. Um segundo depois, meu filho estava sendo arrastado por garras afiadas em direção à pantera. - Akra! Me ajude!
Afinal, não era só eu que havia sido salvo por uma pessoa. 

terça-feira, 2 de julho de 2013

Capítulo 4: Domínios dos Lobos

Naquela noite, Wak não quis me dizer nada. Apenas quando eu terminei de me recuperar dentro da toca escura de Kalion, ela veio conversar comigo. Era de manhã; Os raios de sol entravam suavemente em um buraquinho na toca, e eu agradecia pelo calor que eles forneciam. Ela adentrou a toca, e mais luz entrou nela. Agradecido, eu me ergui. Estava esperando o dia raiar para poder sair dali de uma vez e dar um descanso a Iglu.
-Bom dia, Akra - ela me saudou, nervosa.
-Bom dia, Wak. Como vai?
-Bem. 
-Então, me diga o que tem a me dizer, estou esperando há dias para que você me conte.
Wak se remexeu, ainda mais nervosa. Ela lembrava um gato com coceira. - Mas é que...
- O que é que há, Wak?! - lati. Kalion, que tentava me arrastar para dentro de sua toca escura, levou um susto enorme e quase caiu. - Qual é o problema?! Você está tremendo feito louca! - pigarreei. - Há algo de errado com Iglu?
Ela tremeu até estacar. Ergueu os olhos para o céu, como se pedisse ajuda a Deus, e uivou para mim: - Eu não aguento mais essa mentira, Akra! Eu sou a mãe de Iglu!
Tossi, quase que meu coração para. - Mas... E Lara? Ela é sua irmã! Está ali na frente!
-Ela sabe. Eu dei Iglu a ela quando ele nasceu. Era o momento no qual você foi escolhido como líder da Clareira da Luz. 
-Mas o que é que eu... Tenho a ver com isso? - minha cabeça girava, mas eu já sabia a resposta. 
Enquanto Wak falava minha culpa na história, eu imaginava; A hipótese bateu com o desespero e também com a resposta correta.
-Você é o pai de  Iglu, Akra.
Comecei a sentir minhas pernas bambearem. Senti minha mente girar, sacudir e dançar no meu crânio. Kalion se ergueu e começou a me empurrar.
Não conseguia mais aguentar. Eu tinha muitas responsabilidades, não aguentava mais tanto stress, tanta preocupação... E ainda um filho para cuidar. 
Eu não queria mais conversar palavra com minha antiga parceira. Dei alguns passos para trás, tentando fugir da confusão que me assolava a mente, para em seguida tentar fugir desta; Me voltei para o lado da fora de Junk e, nem olhando para trás, disparei para longe.



Já era tarde da noite quando parei de correr e procurei me acalmar. A tensão que fazia meus músculos arderem era mais forte do que meus pensamentos preocupados. Ganindo, olhei em volta, para observar o local no qual eu me encontrava.
A terra na qual eu vivo é linda, cintilante e maravilhosa. Tem terra fértil para as plantações e vegetações que alimentam as presas dos lobos, fazendo com que o mundo seja rico em comida, e com que nunca haja fome e escassez de alimentos em nenhuma clareira. Se uma sequer de todas elas disser que seus lobos precisam comer, está mentindo.
No entanto, ultimamente, temos muita escassez de alimentos. O povo e os guerreiros estão se tornando cada dia mais fracos. Alguma coisa, algo que estranhamente me encucava, estava matando os animais e deixando as populações destes desfalcadas. Alguma coisa tinha muita fome e matava todos os veados, cervos e lebres da região. Os únicos que nunca tinham sido mortos eram os ratos, que nós tínhamos de caçar, ou iríamos morrer.
Temos, na verdade, nove lindas clareiras ao redor de um imenso círculo marcado com uma vala que, após uma correnteza cair sobre ela, se enche de água e depois segue seu curso, nunca deixando a vala se desfazer. São elas:
·         Clareira de Junk – Luz
·         Clareira de Goz – Fogo
·         Clareira de Kiha – Água
·         Clareira de Carh – Alegria
·         Clareira de Blheg – Lucidez
·         Clareira de Gono – Poeira
·         Clareira de Zonno – Mistério
·         Clareira de Zalhi – Satisfação
·         Clareira Obscura – da Morte, Frieza, Tristeza e Tudo o que contraria as outras melhores clareiras
Havia apenas um local ao qual nunca íamos: à Clareira Obscura. Lá viviam os piores lobos, filhos de hienas com o líder das piores alcatéias. Seres desprezíveis, que matavam e destroçavam por prazer os corpos de jovens lobos que surgiam por lá. Por serem tão horrendos, viviam no alto de uma colina negra como a Morte, que nos pega por trás, e nunca desciam. Ali podiam comer todos os cervos que quisessem, mas que não viessem nos matar. Eles eram ossudos e estranhos, feios e dentuços, que, por serem por isso desprezados pelos outros lobos, faziam tudo isso de ruim – o que apenas piorava sua reputação de desprezível.
Apesar de tudo, não há nada melhor do que observar meu mundo para relaxar. Eu sempre fazia isso.
Naquela noite, o céu estava estrelado, e a lua, cheia e brilhante, prateada, me convidava a relaxar. Apesar de tudo, eu estava entristecido pela mentira que me fora guardada por tanto tempo, e não encontrava um meio de dar vazão a ela sem incomodar ninguém.


Me lembrei de uma vez na qual meu avô me contara, em segredo, que o lobo que está triste deve deixar fluir sua tristeza de maneira saudável e uivar para a lua cheia. Ele me disse que a luz prateada da lua brilhava em nosso cérebro e nos deixava mais lúcidos. Me contou também que dava para ir até Blheg, a Clareira da Luz, mas eu não tinha ideia de onde ir, quanto mais para onde estava indo. Sentindo minhas esperanças e meu vigor baixarem rápido demais, ergui a cabeça aos céus e soltei um imenso uivo, longo, que arrancou-me as mágoas do coração.
Deitei-me por terra, sentindo um calafrio por todo o meu corpo, e comecei a soluçar, magoado. Tudo fora escondido tanto tempo de mim! Eu não aguentava mais. De vez em quando a gente cansa e fica cada vez mais exausto. Parece que ninguém quer colaborar.
Ouvi bufos ao meu lado. Parecia ser algum dos Buscadores de desaparecidos de Junk.
-Quem é? - indaguei, fingindo estar dormindo.
Uma risadinha marota fez minha mente saltar de alegria. - Meu filho, qual é o problema? Parece até que nunca viu seu velhinho aqui, tão perto de você...
Era uma voz enferrujada, alegre, de bem com a vida. Lembrava um senhor de idade, muito cansado. Meus olhos cintilaram, e eu voltei minha cabeça para o ser.
Meu finado avô se encontrava à minha frente. Possuía um resplandecente pelo dourado, como sempre, e aquela linda franja rala sobre os olhos. Ele me olhou com aquele olhar úmido, lacrimoso e castanho, e deu mais algumas risadinhas. 
-Meu filho, recebi teu chamado lá em cima e desci para ver o que te oprime. Conta para teu avô, meu filhote, senta-te no meu colo.
Me sentei, soluçando, sobre o colo de meu avô. Rindo, ele fez uma observação muito inteligente:
-Podes ser o mais feroz e o mais corajoso de todos os lobos nesta vida, meu filho, mas não crescestes tanto assim a ponto de não teres medo, não é mesmo?
Fiz que sim com a cabeça. – Ah, vô, eu sou pai de uma criança agora...
-Como assim?

-Wak, minha antiga parceira, veio me contar que Iglu – aquele que eu odiava, porque achava muito esquisito - é meu filho, e dela também.
Meu vô sorriu, satisfeito. - Meu filho, você deve se preparar. Algo muito pior irá acontecer agora.
Ainda sorrindo, meu avô começou a desaparecer de repente, feito fumaça. Logo, restava apenas seu sorriso, largo e satisfeito.
-Vô, não se vá, eu preciso de você... - mas ele sumiu, dando-me uma lambida na cabeça.
E, logo atrás dele, estava um dos buscadores de Junk, Kim. Tratavam-se de lobos que buscavam os perdidos da Clareira, sem descanso até encontrarem-nos. Eram lobos com muita fibra, para correr tanto.
-Akra - ele disse, desesperado. - Akra, graças a Deus que eu encontrei você. - engoliu em seco, apavorado. - Pas está na Clareira Obscura!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Capítulo 3: Domínios dos lobos

Abri os olhos e gani, dolorido. Não me encontrava mais naquela colina, aonde fora atacado por uma pantera. Estava em Junk, na grama à frente da toca de Kalion. Tossi, e vi um par de olhos verdes-água me observarem. Bufei. Iglu!
-Iglu - chamei, com voz fraca. Ele sorriu, exibindo suas presas, e eu, fracamente, com minha vista embaçada, vi gotas de sangue manchando seus dentes. Ele me carregara até Junk?
-Akra - ele lambeu minhas bochechas. - Akra, não se mova. Você foi atacado por uma pantera...
-Eu sei que eu fui atacado por uma pantera - resmunguei. - Eu bem que me lembro dos dentes da bendita coisa fincados na minha garganta. Por Deus, Iglu, você me carregou até aqui?!
Iglu assentiu com a cabeça. - Kalion quer saber se você quebrou alguma costela. Eu acho que sim. Você cuspia sangue, Akra, não parava de vomitar sangue, dos puros. Eu ouvi o seu grito de dor quando a costela se quebrou e vi quando escorreram lágrimas de seus olhos.
Eu gani, ao sentir uma pata experienciada tocar as laterais de meu corpo. Tossi, e comentei, compadecendo-me do meu companheiro de Clareira. - Pobre criança. Não deveria ter visto tanta crueldade.
Iglu, involuntariamente, rosnou, irritado. - Eu não sou criança. Eu já sei as desavenças entre panteras e lobos. Mas... Eu não sabia que as panteras podiam ser tão cruéis com os lobos.
Eu sorri, alegre. De repente, a dor sumiu de meu corpo. - Iglu, você nasceu nessa Clareira. Mesmo que já tenha ido morar com os humanos, você ainda é um Lobo de Junk. Eu o considero como um de meus filhos. 
Iglu lambeu meu focinho e deu licença a Pas. - Pai! Pai! Você está bem?
O lobo branco magricela olhou para mim. Ele queria que eu fosse atendido logo. Iglu era uma das mais brilhantes e puras luzes da Clareira da Luz.
Kalion olhou para mim, enquanto eu revirava mais uma vez os olhos e desmaiava.
Acordei dentro da toca escura do doutor da Clareira. Ele estava em cima de mim, e com as patas cobertas de sangue, que pingava no meu rosto. Cuspi, irritado, uma gota que caiu na minha boca. O velho lobo limpou a garganta e falou, numa voz vagarosa e enferrujada pela idade.
-Akra, você foi muito ferido. Eu sequei seus ferimentos com musgo, estanquei o sangramento, mas você partiu algumas costelas. Creio que terá de ficar aqui por algumas semanas, descansando. Escute, líder, você deve escolher um de seus guerreiros para manter a liderança por você por algum tempo. Tem algumas horas para pensar.
Mas eu demorei apenas alguns minutos. Mandei Kalion para dizer à todos da Clareira quem seria meu escolhido. Só pude ouvir quando o médico falou...
- E o escolhido para poder manter a liderança de Akra enquanto ele se recupera é....Iglu!!!!!!
... Pois, após seu discurso, não conseguia mais nem ouvir meus próprios pensamentos.
Toda a Clareira ergueu vozes de protesto. Reclamavam, dizendo que Iglu não era o suficiente para comandá-la. Queriam, ainda, bater nas portas da casa de Kalion para discutir comigo. Estremeci. Eles deviam querer me desfiar, ou, talvez, me dar de comida aos ratos e abutres. Seria uma desonra. Mas, engolindo em seco, tomei coragem e me vi mais uma vez como o líder forte e comandante que eu costumava ser. Um puro macho de batalha.
Sendo assim, me ergui do chão coberto de musgo, gemendo e dolorido. Embora Kalion houvesse me proibido de caminhar, eu fui até a porta. Todos abaixaram a cabeça ao me verem, Iglu soltou um guincho alto e Kalion tentou me empurrar para dentro da toca. Percebi que, ao menos, eles não iriam querer me dar aos ratos e abutres.
-Não escolham por mim! - rosnei, abusando de meu poder, satisfeito, e, para minha alegria, todos estremeceram. - Se Iglu é meu escolhido, que assim seja! Não cabe a vocês escolher quem tomará conta um do outro. Este é meu papel. Se sou desnecessário, vou embora!
Baixei a cabeça, enquanto Kalion me segurava. Inspirei por um momento e ergui a cabeça novamente.
-Quando eu fui atacado pela imensa pantera, Iglu ficou parado, morto de medo. Todos aqui sabem que ele ainda não completou o treinamento de guerreiro. Mesmo assim, tentou tirar a pantera de cima de mim, por mais que não soubesse como. Sei que vocês fariam o mesmo, mas vocês sabem muito bem como se defender. Então, será Iglu o escolhido, sem nem mais um pio quanto a isso! Estamos entendidos?!
-Sim, Akra! - eles baixaram a cabeça novamente e se foram, cada qual para os seus trabalhos. Apenas duas lobas ficaram na frente da toca de Kalion. Lara e sua irmã, Wak. 
Me voltei para elas e tossi ruidosamente. - O que há? Existe algo que queiram me contar? - vendo que estava quase rosnando, baixei o tom de voz e pigarreei. - Algum problema?
As duas chegaram mais perto de mim, mas apenas Wak prosseguiu até quase colar seu focinho com o meu. - Akra, você se lembra de quando nós.... Éramos parceiros?
-Claro - grunhi. - Como não me lembraria?
-Bem... Você sabe que eu sou tia de Iglu.
-Sim,a mãe dele é Lara.
 Ela estremeceu. Olhei fundo nos olhos dela. - Não é mesmo?

terça-feira, 4 de junho de 2013

Capítulo 2: Domínios dos lobos


Eu arregalei os olhos e meu coração pesou. Parecia que um enorme peso havia sido arremessado sobre meus ombros. Arranquei da toca de Kalion com um estrondo, e quase arrebentei sua porta de madeira.
Quem chegava era Cicio, meu especial amigo e confidente. Eu gostava muito dele também. Tratava-se de um imenso cão troncudo, espadaúdo, musculoso, a pele negra e os pelos curtos e sedosos. Tinha olhos azuis profundos, não tão glaciais quanto os meus, que eram da cor do gelo e, na verdade, também era um cão normal, mas vivera com donos humanos. Fugira, porém nunca conseguira arrancar sua coleira, espinhenta e metálica. Aquilo aparentava lacerar sua garganta, mas ele aguentava com coragem a dor lancinante que parecia ser o que sentia sempre que se movia.
-Cicio! - chamei. Ele virou o rosto arranhado com força. Senti que a garganta devia ter doído mais um pouco. - Cicio, o que aconteceu?
Ele lambeu os beiços. - Akra, eu estava buscando a patrulha de caça de Pam, que nunca chegava, e a encontrei caída no chão. Estava respirando com dificuldade. Eu a trouxe correndo, e, ao menos, ela quis dar seu último suspiro dentro das fronteiras da Clareira. 
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. - Morreu?
Suspirei e olhei para o chão, mas nunca desejei tanto poder olhar de novo para cima.
Graças a Deus, Pam não sangrava tanto quanto eu esperava, mas havia uma luz em seus olhos. Aquilo me entristecia.
Por quê?
Porque eu a amava.
Eu não sabia por que ela sorria. Ela abandonara a vida, a coisa que ela mais adorava!
Mesmo assim, cheguei mais perto dela e apoiei minha cabeça em seu pelo macio, branco sarapintado de negro. Chorei como um filhote.
-Pam, por quê? Não podia ter feito isso comigo! - engoli em seco e baixei ainda mais a cabeça, para que ninguém além de mim mesmo ouvisse o que diria a seguir. - Eu a amo, e nunca deixarei de lhe amar.
Pam não esboçou reação, mesmo depois daquilo, e eu notei que ela havia ido embora. Simplesmente me abandonara. Lágrimas salgadas escorreram-me pela face e chegaram-me na boca. Engoli o sal azedo, mas não prestei atenção em mais nada além da morte dela.
Engoli mais um pouco em seco. Corri para longe.
Cicio irrompeu da multidão. - Akra! Volte! Temos de cuidar do enterro! - uivou, tentando chamar minha atenção. Eu me sentia como um filhote rebelde, que escapava dos pais a todo momento.
Mas eu não queria ouvir aos chamados de ninguém. Fugia, embora soubesse que a fuga nunca iria me livrar da dor de minha perda. 
Cheguei à uma planície e me sentei sobre uma rocha, suspirando. Tentei pensar em outra coisa que não fosse Pam. Morta. Nunca mais eu a veria. 
Mas, enquanto meus esforços morriam, vãos, eu ouvi outro uivo. Desta vez, era agudo, fino, irritante. Apoiei o focinho entre as patas. Iglu, o lobo que mais gostava de me encher, viera atrás de mim.
Fechei os olhos, tentando fingir que não o conhecia e que não queria que ninguém me visse. Um súdito prudente, sem hesitar, iria embora e me deixaria em paz. Mas Iglu não era nem ao menos prudente, então ele começou a me focinhar.
-O que você quer?! - resmunguei, sem vontade de atendê-lo.
-Akra, não fique assim por causa de Pam. Ela... Ela também o amava.
-Você sabe quem era Pam?! - vociferei, irritado e chorando. Olhei para ele. Comecei a soluçar. - Pam era a mãe do meu filho, a loba que eu amava e a quem eu queria me declarar futuramente!!!
Iglu não respondeu. Apenas abriu a boca, mas eu não sabia se queria falar ou se estava assustado. Porém, graças a Deus, na hora das discussões é quando nós mais encontramos o que falar para assustar. - E, se você disser que Pam não era uma loba, eu juro que te desfio em fatias!!
O lobinho se eriçou. Bom, na verdade, eu até que gostava de Iglu. Ele era muito bonito. Tinha pelos da cor da neve, pálidos até as pontas, cada fio, seus olhos eram verdes-água, seus dentes eram branquinhos e ele tinha a ponta das orelhas escurecida. Daí depois ele era mais feioso. Lembrava muito uma carcaça branca de tão magricela, seus olhos saltavam fora das órbitas, sua cauda era fina, porém ainda assim era bonita e sedosa, e, em sua pata dianteira esquerda, ele tinha amarrado um cordão azul. Não sabia o porquê desse cordão azul, mas o importante é que ele tinha um. 
Iglu fora considerado um cão de caça maltratado quando foi encontrado fuçando nas lixeiras. Ele foi capturado pelos humanos, que o venderam para uma senhora, que amarrou este cordão nele. E, deste então, ele enlouqueceu e nunca mais parou de falar da vida com os humanos.
E, deste então, ele me enchia o saco de uma maneira absurdamente frequente.
-Akra... - ele gaguejou, fungou e prosseguiu. - Akra, não fique assim. Você, não importa o tempo que demore, vai superar essa perda. Agora, vamos embora, esse lugar fica perto demais do território das panteras negras. Vamos embora!!!!!
Continuei deitado, fingindo que não ouvira. Enquanto lentamente, sofria, com um gemido, me ergui. Pigarreei: - Você não citou em parte alguma de meu consolo sua vidinha de cão de estimação. 
Iglu sorriu. - Eu respeito a dor dos outros e a coloco acima de meus gostos, Akra.
Gemi, com dor nas juntas. - Vamos, então.
Eu mal ouvi a fera atrás de mim. Um ruído baixo não me fez prestar atenção nele, talvez vindo de meu coração, que ainda sofria.
E, quando eu vi, uma pantera saltou em cima de mim. 
Era um raio marrom com minúsculas listras mais escuras. Não era daquela região, o que estava fazendo ali?! Gani, quando as garras imensas e negras da pantera se cravaram nas minhas costas. Senti o sangue me escorrer até gotejar nas laterais do corpo, e me desesperei. Girei como um tornado, sacudindo a pantera em cima de mim, ela cravando as presas na minha garganta. Senti que ela tentava me matar, mas não conseguia, porque escorregava das minhas costas e quase caía.
Iglu estava ao meu lado, mas, quando viu que a pantera estava quase conseguindo me cansar, caiu em cima dela, arrancando a pele de suas costas e a fazendo guinchar de dor. Ela caiu matando sobre ele, que conseguiu tirá-la de cima de si e a deu um corretivo, mordendo e arrancando um pedaço de sua orelha. Tremi e caí no chão. Senti que algo dentro de mim arrebentava e se partia. Uivei de dor.

A pantera se fora, mas a dor, não. Permaneci no chão, e, em dois segundos, fechei os olhos e deixei meu corpo relaxar, repetindo muitas vezes a palavra “Pam”. Depois de alguns minutos, ela perdeu o sentido para mim, enquanto eu observava o sangue escorrer de mim e de Iglu.

domingo, 26 de maio de 2013

Capítulo 1: Domínios dos Lobos

O vento batia de modo suave em meu rosto. Pisquei, lambendo os flocos de neve que pousavam em meu focinho.
As patas trotavam, as garras afastando gelo e neve para os lados, causando uma mini-nevasca simultânea. Me sentia cansado, os nervos e músculos doíam, e eu queria dormir por mais alguns meses na minha toca quentinha, até melhorar de minha dor e poder andar novamente. Gemendo, prossegui olhando para a frente, até ser atingido com uma grande bola de neve bem no meio dos olhos.
A lebre que eu seguia dera uma patada no chão, jogando neve em meu rosto. Rosnando, impulsionei minhas patas, enquanto ela pensava que eu tinha parado e relaxava, acalmando-se e farejando o ar em busca do aroma de ervas para comer. Suavizei a força das patas no chão. Ela tinha bons ouvidos, mas prestar atenção no som era algo que ela não conseguia fazer muito bem ao ser perseguida.
E me lancei sobre a lebre gorda, abrindo minha boca com ímpeto assassino.
Firmei as presas ao redor de seu corpo inerte, sentindo o sabor do sangue quente vertendo em minha garganta. Lambi a carne fresca e voltei-me para o meu caminho, os músculos ardendo de tanto correr.
Voltei até o tronco de uma árvore mais aquecida, bufando, e me lembrei que, por mais cansado que estivesse, ainda teria muito trabalho a fazer.
Permaneci sob a árvore, deitado, aquecido e restaurando ao menos um oitavo de minhas forças, para então me erguer, com dores nas juntas, e trotar até a Clareira.
A minha Clareira.
Lucem era um local seguro e familiar. Nada de assustador rondava a Clareira da Luz, e todos eram honestos e bons ali, sempre ajudando uns aos outros. Levei a lebre até um buraco cheio de presas, lambi o sangue da boca e caminhei até minha toca.
Eu morava em uma grande caverna, uma formação rochosa obscura, que poderia assustar quem passasse. Mas isso era por fora.
Adentrei a caverna com alegria, e vi mil vagalumes voarem, acomodados e quentes na pedra, e iluminarem tudo com seus traseiros cintilantes. 
Havia diversas coisas na minha toca. Eu tinha uma cama feita de musgo e algodão, que eu trocava diariamente, e uma cama para meu filho, Pas. Eram as duas aconchegantes, macias, brilhando com as mais belas variações macias e quentes da seda, feitas especialmente por cem bichos-da-seda.
Ouvi um uivo profundo vindo do fundo da caverna, e trotei até aquele som. Ouvi que ele chegava cada vez mais perto de mim, também.
Pas chegou até mim, lambendo meu rosto. Era uma saudação especial que nós havíamos criado para que pudéssemos nos acomodar melhor na caverna grande e assustadora por fora, mas linda por dentro.
-Olá, pai. Como foi o dia? - perguntou ele, lambendo minha testa. - Caçou muito?
Grunhi em despeito ao meu trabalho diário. - Cacei uma lebre, passei por Gaudium, a Clareira da Alegria, e Claro, a Clareira da Lucidez. Buscava falar com alguns líderes. Estamos precisando de um pouco mais de caça. Está escassa demais, e também precisamos de um tratamento para as novas doenças crônicas. Mas e você, filhote? Caçou alguma coisa hoje?
-Não, na verdade. Kayuz não me deixou caçar, aquela velha chata. Mesmo assim, eu cacei um camundongo, e, quando ninguém estava vendo, coloquei-o na pilha de caça.
Sorri e lambi sua testa felpuda, deixando-a úmida e espessa. - Muito bem, filho. Nunca desista de alguma coisa só porque alguém não o deixa fazer aquilo. - me ergui, com dores nas juntas. - Eu tenho de ir cuidar das coisas, dos remédios. Volto mais tarde. Ah! Procure caçar mais alguns camundongos, vamos ver suas habilidades para caçar.
Saí de minha caverna e me dirigi diretamente para a toca de Kayuz, a velha loba responsável pelo abrigo aonde os filhotes ficavam em Lucem. Ela mantia meu filho e os de todos os outros lobos a salvo de animais horríveis, protegendo-os a todo custo, mas muitas vezes seu faro errava, e ela protegia os filhotes de animaizinhos mínimos. Abri a porta de líquen com uma cabeçada.
Kayuz estava sentada, meditando, e arregalou os olhos para mim. Com voz mofada, grunhiu. - Olá, senhor Akra. O que deseja? Hoje Pas teve um dia agradável, mas não o deixei caçar, pois senti cheiro de um animal rondando a mata. 
-Qual animal? - eu torcia para que fosse um urso ou uma pantera negra. Aí, Kayuz teria razão em proteger meu filho.
-Um gato selvagem, meu senhor. – ela disse, indiferente ao erro. Normalmente, ela nunca notava que errara em proteger as crianças.
Bufei em desprezo. - Um gato?! Um gato?! Nem meu filho nem nenhum dos filhos dos outros lobos tem medo de um gato! Da próxima vez que a senhora sentir cheiro de gato perto da mata, deixe Pas sair na frente dos outros, e ele o destroçará! Dona Kayuz, nunca mais faça isto! Meu filho será alguém na vida. Dele surgirá, não importa nada, dele surgirá um grande lobo que prosseguirá governando a Clareira de Lucem! - comecei a rosnar bem mais alto do que podia, e Kayuz se ergueu. Tremendo, ela olhou para mim, como se eu precisasse de um remédio para loucura.
-Senhor Akra - grunhiu ela, com sua típica e monótona voz. -, seu filho destroçará o próximo gato que eu farejar. Tenha um bom dia, mas agora eu devo descansar e meditar mais.
Abandonei a toca poeirenta de Kayuz soltando bufos, e fui para a toca do Doutor Kalion. Era ele quem criava os remédios para a população local. Na frente de uma barreira de madeira escura - o Doutor sempre queria escuridão para poder ver melhor o que os remédios faziam, era louco -, que deveria estar tampando toda a luz de fora, dei duas patadas e um grunhido curto. Aguardei, ansioso. 
A portinha de madeira deu uma leve abrida, e um grande olho dourado me fitou, de uma maneira assustadoramente preguiçosa. - Olá, Akra. Quais são os pedidos de hoje?
-Kalion, abra a porta! - grunhi.- Quero sair daqui de fora. Senão, Iglu voltará a me entediar com aquele papo de cãozinho de estimação dos humanos.
-Iglu o adora, Akra - tossiu Kalion. Ele era um imenso lobo vermelho, com um dos olhos costurado porque já passara por muitos apuros. A pelagem era de um avermelhado clarinho, porque ele não saía muito ao sol ultimamente. 
-Doutor Kalion, termine os remédios para a epidemia. Fui eu que o autorizei a vir para esta Clareira como médico. Mas apenas se você ajudasse. Ou será que você se esqueceu?
-Senhor Akra, os remédios ficarão prontos logo, apenas não estão agora. - sorriu o lobo velhaco. - Agora entre, vamos conversar.
Ele abriu a porta de madeira. Hesitante, dei um passo à frente. 
-Pata direita, Akra - sorriu mais uma vez o velho animal. - Não quero que azare minha residência.
-Vou é azarar a sua cara feia se não parar com isso - grunhi, mal-humorado. Mesmo assim, pisei com a pata direita na casa pela primeira vez. – Superstições são bobagens inúteis!
-Como vai Pam? E Pas? - perguntou ele, me servindo metade de uma fruta, repleta de um chá de ervas medicinais. Recusei, com um sorriso. Aquelas coisas aparentavam ser horríveis, e cheiravam ainda pior. 
-Pam saiu numa expedição de caça. Fiquei preocupado, fica perto demais das rochas das panteras. Tenho medo de que alguém cruze com uma delas no caminho. Pas acabou de ser proibido de caçar pela Sra. Kayuz por causa de um gatinho idiota. - Pam era uma de minhas melhores amigas, e eu gostava muito dela. Fora uma cadela de rua, mas decidira se tornar uma de nós. Selvagem. Eu a adorava, e ela também passava todas as horas comigo.
Kalion sorriu, tossindo. - Pas é um jovem forte, mas talvez a Sra. Kayuz tenha razão. Um gato selvagem nem sempre é tão frágil e fraco assim.
Bufei. - O senhor está enganado. Pas seria capaz de matar um touro, e não um gato? - ri. - Kayuz nem sempre tem razão, Kalion. 
Foi quando eu ouvi um som aterrorizante. Como se fosse uma trombeta, soou pela Clareira como se apenas quisesse me apavorar, e a mais ninguém. Tremi feito um débil mental, e senti meus joelhos fraquejarem. Era como se estivesse ouvindo o pior som do mundo.

-Pam está morta!