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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Capítulo 6: Domínios dos Lobos

Por alguns instantes, eu fiquei paralisado, sem saber o que fazer para salvar meu próprio filhote. Observei enquanto a pantera se engalfinhava com ele, mordendo sua cauda e tentando arrancar um pedaço de sua orelha ou de seu focinho. Eu observei a cauda amarronzada - de novo, uma cauda marrom?! - da fera sacudir-se de contentamento, chegando perto de mim, enquanto Iglu procurava sair de perto do animal. Meu cérebro funcionou velozmente, e eu me lancei sobre a parte felpuda dela, e a mordi, cheio de ódio.
A pantera girou em círculos, lançando Iglu para fora da caverna, e ali ele ficou caído, enquanto eu a fazia correr atrás de mim, para fora de lá também.
Ela bufava, tentando abocanhar minha cauda também, e me arrastar para a morte, assim como fez para com meu filhote. Assim que ela saiu da caverna, eu vi que as estrelas tomavam conta do céu e velavam por Iglu, que estava ainda no chão, sem acordar. Era noite. Voltei-me para o animal e vi que era o mesmo que atacara a mim e a Iglu no deserto no outro dia; possuía o mesmo corte na orelha que meu filho fizera naquele animal.
Subi sobre o corpo da fera, enquanto, em vão, ela tentava me ferir. Eu rasguei suas costas inteiras, arrancando pelos, pele e deixando o sangue umedecer minhas patas. Ela guinchava, reclamando da dor alucinante, e erguendo suas garras para alcançar minha face. Eu desviava rapidamente, mas houve um momento no qual ela conseguiu tocar-me com suas patas, rasgando a pele sob meu queixo e me arrastando para a sua frente. Impiedosa, ela cravou as presas na minha garganta, fechou o maxilar e começou a me sacudir de um lado para o outro. Senti a pele de meu pescoço tentar se rasgar. Dei uma patada num dos grandes olhos viperinos e amarelados da pantera, grunhindo e cegando-a. Ela rugiu de dor, enquanto eu me desvencilhava de sua mordida e abocanhava sua garganta. O sangue veio ativar meus instintos de caçador, e ferrei as presas ainda mais fundo. Iglu se ergueu de um sobressalto, observando que eu precisava de ajuda, e imediatamente saltou sobre a pantera amarronzada, abraçando seu pescoço com a maior força que tinha. Mas em poucos instantes a pantera notou que estava ali e arrastou-nos ambos para fora dela. Rosnando, ela voltou-se para nos levar até a Clareira Obscura. 
-Oh - Iglu gemeu, olhando para mim, temeroso. -, isso não é bom. 


Demorou um dia e meio para que chegássemos lá em cima, de modo que o sol estava a pino quando observamos a Clareira Obscura. 
Tratava-se de um local todo repleto de terra negra, seca. Os animais circulaam de um lado para o outro, todos lobos atarracados, ossudos, com pelos negros, cinzentos e manchados. Tinham focinhos menores e orelhas maiores do que os nossos, e presas muito grandes, afiadas e tortas. As garras eram gigantescas, e em alguns animais até havia sangue nelas. Eu estremeci só de olhar para todos eles. Olhos vermelhos e da cor de caramelo faiscavam, exibindo um absurdo desejo de matar e rasgar em dois. Carregavam pequenos faisões e partes de cervos mortos, diretamente para uma caverna de rocha negra. 
Quando a gigantesca fera amarronzada nos lançou aos pés de todos aqueles lobos esquisitos, eles nos encararam com feições odiosas e enojadas, e um grande, porém atarracado lobo negro, de focinho partido no meio com uma longa cicatriz, veio encontrar com o animal selvagem que rosnava para nós.
-O que aconteceu, Golem? - o lobo negro indagou, em voz baixa e ameaçadora. Torceu o nariz para nós dois. - Por que você não está lá em baixo, cuidando para que nenhum destes vermes apareça por aqui?
-Vim trazê-los - disse Golem, nos olhando com seus fundos e perigosos olhos amarelos. -, porque estavam tentando subir o Monte das Sombras.
-E... Por que fariam isso? - o animal nos olhou, exibindo os dentes e soltando uma gargalhada rouca e perversa que me disse que precisávamos sair dali o mais rápido possível. E tirar meu filho daquele lugar horrível. - Ninguém contou aos dois filhotes que nunca conseguiriam subir tudo sem        serem capturados?!
-Viemos buscar um filhote - disse Iglu, se erguendo de seu pequenino ponto na rocha negra e encarando o lobo negro e perverso. - O filhote deste lobo aqui. Não viemos atacar, nem roubar nada. Viemos aqui para poder encontrá-lo e levá-lo para casa.
-Se vieram encontrar um filhote, garanto a vocês que está morto - rosnou o animal negro, feroz, crispando os pelos das costas. - Já devemos tê-lo destroçado.
-Precisamos discutir as regras. Vocês não tem o direito de matar nenhum lobo vindo de outras Clareiras! - eu vociferei, recusando-me a acreditar que Pas estava morto. Ele nem meu filho era, eu devia ter cuidado mais dele. Não deveria ter me afastado dele, nem fugido da Clareira. Isso não teria acontecido ao meu filhote. 
-Escute aqui, seu saco de pulgas metido a líder de alguma coisa - o animal de pelagem negra disse, irritado. - Você não tem o direito de mudar as nossas regras! Se algum dos seus lobinhos maricas aparecer por aqui, o destruiremos pelo bem de nossa Clareira. Está me entendendo?
-Não, não estou! - eu quase colei meu focinho no dele, e bufei com força. - Você também não tem o menor direito de matar nenhum dos nossos lobos. Eu vim buscar o meu filho. E, se ele estiver morto, retalharei tanto a você quanto a todos os seus lobos em vingança.
-Mas que animalzinho atrevido você trouxe para mim, Golem! - riu o lobo negro. - Vejo como sua idiotice o leva a demonstrar coragem. Estúpidos, ambos eles! - ele lançou um olhar assassino para a pantera amarronzada, que aproveitava o espetáculo de insultos sentada e atenta. - Jogue-os nas celas.
Eu ameacei mordê-lo, e ele retraiu seu corpo num movimento instintivo. - Quando eu encontrarei meu filho, seu saco de pulgas?! 
Mas Golem já nos arrastava, puxados pelos cangotes como filhotes, até uma imensa caverna negra com celas enferrujadas. Tremendo, eu e Iglu nos encaramos, dizendo um ao outro que jamais voltaríamos a Lucem.

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