Me ergui de um salto, apavorado. Meu coração batia em meu peito tão forte que eu temia que o Buscador fosse ouvir. - Mas como assim, está na Clareira Obscura?!
Ao lado do Buscador vinha uma jovem loba de pelos claros, Gaye, uma das melhores amigas de meu filho. - Akra, Pas e eu brincamos com alguns valentões que nós conseguiríamos entrar e sair vivos da Clareira Obscura. Era só uma brincadeira para nós, e estava combinado que seria também para eles, depois todos nós rimos juntos, mas depois os valentões encostaram Pas contra a parede. Queriam que ele fosse mesmo até a Clareira Obscura e voltasse vivo. Ele me disse, embora eu tentasse impedi-lo, que voltaria por volta de meio-dia. Mesmo assim, ele ainda não voltou, e tenho medo de que os lobos de lá tenham pego meu amigo. O senhor precisa ir resgatá-lo, senhor Akra!
Estremeci de terror só de
pensar que poderia morrer lá. Mas Pas era meu filho, não importava que fosse de
minha amiga e quase-companheira, e eu destroçaria a Clareira inteira se fosse
necessário para que encontrasse meu filho. Eu o amava mais que tudo na vida, e,
mesmo que Iglu fosse meu filho de sangue, uma parte de meu coração pertencia àquele
jovem lobinho. Saí, disparado, de meu abrigo, correndo ao lado dos dois lobos,
espumando de fúria, até chegar, finalmente, na Clareira.
Todos estavam preocupados
comigo, pelo visto, já que soltaram um suspiro de alívio quando me viram. Mas
eu nem liguei, fui apenas para a toca de Iglu e lati, desesperado para que me
atendesse. Tinha medo de que ele já soubesse que era meu filho. Aí seria mais
uma coisa com a qual me preocupar.
Iglu abriu a porta, me olhou e desviou o olhar, com voz ríspida. – O que você quer, Akra?
-Ela já te contou? Sobre tudo?
Ele fez que sim com a cabeça,
e já ia fechar a porta na minha cara quando eu pus a pata na frente. Justamente
a pata que eu havia ferido quando estava correndo até o deserto. Uma dor
alucinante me atingiu, e eu gani. – Isso não é hora de ficar bravo comigo,
justamente porque eu sou seu líder. Como você cuidou tão bem da Clareira
enquanto eu estava ausente, me recuperando, que agora, quando eu preciso de
meus melhores guerreiros para uma expedição, vou ter de chamá-lo. Iglu, venha
comigo buscar Pas na Clareira Obscura, eu lhe peço. Isso nos dará mais chances
de nos conhecermos... Filho.
Ele assentiu, embora que
relutante, e tive cada vez mais certeza de que ele apenas ia comigo porque eu
era o líder da Clareira aonde ele vivia.
-Vamos seguir viagem, então. Não podemos perder tempo, não é mesmo, Akra?
Seguimos em direção norte por muito tempo. Passamos por um terreno arenoso desconfortável. Várias pedrinhas cinzentas raspavam minhas patas, fazendo com que elas ardessem como se em chamas. Passamos por uma terra de rochas mais claras e coloridas, mas que ainda assim voavam para cima quando pisávamos nela, tentando nos cegar.
Mas por nenhuma das dores do mundo eu desistiria do meu filhote querido.
Iglu permaneceu calado ao longo de toda a viagem, e nunca voltava seus olhos verdes-água para mim. Quando olhei para ele uma vez, notei que evitava olhar para mim, e mantinha-se tenso. Uma cicatriz fina, que eu nunca havia visto, brilhava sobre seu olho esquerdo. Foi quando eu notei que aquela era a cicatriz que a enorme pantera marrom que nos atacara deixara no olho de meu pobre filho.
E agora ela tentava mostrar para mim que ele tentara me defender a todo custo. Senti-me culpado por não tê-lo deixado saber de nada, ainda que soubesse que nós dois havíamos sido vítimas daquela mentira, que durara por toda a vida do pobre lobo branco. Eu queria simplesmente gritar com ele e dizer que eu não sabia de nada, assim como ele, e que ele parasse de me ignorar. Mas eu sabia que ele me ignoraria, porque.... Porque eu também ignoraria qualquer coisa que me dissessem nessa situação. Eu sabia que ele era igualzinho a mim, e que também faria isso.
Quando, enfim, chegamos no gigantesco monte de rocha e terra negras, minhas patas sangravam e tanto eu quanto Iglu havíamos emagrecido alguns quilos, o que nos deixou quase sem energia para a escalada. O sol estava a pino e sofremos muito para andar pelo monte.
Quando nos encontrávamos aproximadamente no primeiro oitavo da montanha pertencente à Clareira Obscura, eu ergui o focinho para o céu e vi que os primeiros resquícios de luar tingiam-no de prateado. Estava anoitecendo, e rápido. Os lobos valentes que já haviam viajado e suportado o caminho até a Clareira mais mortífera de todas contavam, se chegassem vivos, que pelo seu rumo eles encontravam serpentes, camundongos e até animais maiores e mais ferozes à noite. Ou seja, precisávamos nos esconder logo, antes que algum bicho tentasse nos matar.
-Precisamos arranjar um lugar para descansar - eu ofeguei, cansado devido à viagem, voltando-me para Iglu. Pela primeira vez desde o momento no qual começamos a viajar, ele olhou para mim, os olhos verdes-água tornando-se quase tão frios quanto os meus, feitos de puro ódio.
-Está bem. Vamos procurar um lugar para ficar. - Iglu disse, ríspido e rápido. Ele caminhou, com dificuldades, até uma minúscula caverna, também de rocha negra, que abria sua boca nada convidativamente para nós dois. - Vamos ficar aqui.
-Eu não confio nada na aparência desta caverna, Iglu - eu balbuciei, notando que a cicatriz se franziu para mim como se ela gritasse: "confie nele, ele salvou sua vida, seu grande idiota, é seu filho!". Eu baixei a cabeça, e entrei atrás dele.
Nos deitamos um ao lado do outro, e Iglu voltou sua cabeça para outro lado, procurando ignorar minha presença.
-Vamos, não me trate assim - eu gaguejei, triste, quase implorando que ele me perdoasse, ainda que não houvesse o que perdoar. - Eu não quero que me ignore, fil-
-Haja o que houver, não pronuncie essa palavra - ele rosnou, para depois baixar a voz como se pedisse desculpas apenas pelo tom. - Você não é meu pai.
-Sou, sim, e não tenho culpa de nada nisso. Eu também não sabia.
-Mesmo assim, você nunca vai ser meu pai! - ele vociferou, sem se dar conta de que estava afrontando o próprio líder.
Eu ia responder, mas um rosnado grave interrompeu meus pensamentos. Iglu voltou seu olhar gélido para trás, e suas feições se formaram em puro pânico. - Akra...!
Voltei minha face para trás de nós, e vi um par de olhos amarelos observar-nos. Uma porção bem grande de dentes esbranquiçados nos deu a impressão de que uma boca foi escancarada num rugido feroz. Um segundo depois, meu filho estava sendo arrastado por garras afiadas em direção à pantera. - Akra! Me ajude!
Afinal, não era só eu que havia sido salvo por uma pessoa.
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