Logo, no entanto, me lembrei; estava preso na Clareira Obscura, junto de meu filho biológico, Iglu, meu outro filho, adotivo, Pas, Soet, uma lobinha da idade do segundo filho, de pelos cinzentos e grandes olhos verdes, e Atala, uma cachorra que estava com graves problemas respiratórios e que deveria estar presa naquele lugar horrível há muito, mas muito tempo mesmo.
O estrondo surdo que eu ouvira fora produzido por uma criatura do lado de fora, que batia violentamente contra as grades. Queria nos provocar Abri melhor os olhos, e vi que era um lobo adulto, de pernas longas e finas e pelos e olhos negros como tudo naquele local. Decidi acordar os outros, correndo feito um louco, e contar-lhes o que estava acontecendo. Precisávamos agir agora, ou o disfarce de animais raivosos não conseguiria ser concluído.
Lati bem alto, e todos me ouviram e acordaram, alarmados. Pas observou que estava concluindo meu disfarce, e decidiu "berrar" por ajuda. - Ei, amigo! - chamou, correndo de mim. Atala começou a salivar o suficiente para que eu próprio a confundisse com uma cadela raivosa. Contraímos os músculos da face. Iglu andava de maneira rígida, mancando, e salivava e latia. Todos nós estávamos atuando muito bem. - Socorro! Não reconhece dois lobos da Clareira Obscura?
-Vocês são daqui?! - alarmado, o animal chamou Pas e Soet, que estavam correndo em círculos de mim e de Iglu, dando passagem para que fossem pelas grades. Atala, babando muito, tentou morder a pata do lobo, que afastou os pequeninos com cuidado. - Venham, temos que enxotar esses lobos! Estão com raiva! Vão avisar a Yalan, não vão? - ele disse, concluindo sem saber uma boa parte do plano.
Passamos a manhã inteira aguardando e tentando destruir a prisão. Salivamos tanto que nossa boca chegou a arder. Mas, quando Yalan finalmente apareceu na nossa frente e tentou nos examinar, os músculos pararam de doer, continuamos a salivar e eu até tentei - e quase consegui - abocanhar uma das patas do líder de pelagem negra e focinho ferido.
-Por Deus! - ele se voltou para Soet e Pas, alarmado. - Mas como vocês descobriram essa raiva?
-Acabamos entrando aí dentro para provocá-los - Yalan balançou a cabeça em aprovação - e aí eles acordaram. Tentaram nos matar!
-Isso é muito interessante, pequenos. E se enviássemos esses lobos raivosos ainda vivos, para que infestem as outras Clareiras? - sorrindo, ele aguardou alguns segundos, enquanto meu filho e sua amiga balançavam a cabeça, concordando com a ideia. Ainda bem que Pas raciocinava rápido.
-Poderíamos observar enquanto alguma das panteras enxota os prisioneiros? - disse Soet, doce, porém de rapidíssimo raciocínio.
-Mas é claro, devo tudo a vocês, meus pequeninos! Vocês salvaram a Clareira Obscura. - em seguida, ele soltou um uivo tão alto que quase estourou nossos tímpanos. Eu me assustei, e, para disfarçar, enfiei meu focinho na grade, tentando morder Yalan (Na verdade, eu bem que queria morder Yalan por ter me ameaçado, me chamado de estúpido, dito que provavelmente teria matado meu filho e me atirado numa cela).
Em seguida, vinha Golem, a imensa pantera amarronzada e musculosa trotando na neve. Aparentemente, o ambiente do felino não era ali: na verdade, panteras marrons como Golem eram raras próximas do Círculo das Clareiras. Ela deveria ter sido obrigada a viver naquele local por conta de alguma destruição na sua região natal, ou por causa da caça de panteras que normalmente havia próximo de suas cavernas. Naquele momento, eu senti pena de Golem. Ele estava tiritando de frio, mas desafiava os limites de sua saúde caminhando, submisso, até Yalan. Eu continuava tentando morder o lobo negro, e Atala veio me puxar para mais uma perseguição divertida.
Na verdade, aquela imitação de animais raivosos era, de fato, uma coisa engraçada e prazerosa; eu perseguia Atala, ela me perseguia, Iglu também corria conosco, e gastávamos nossa energia nisso. Eu já podia sentir o vento zunir em minhas orelhas com aquelas brincadeiras.
-Golem, leve esses lobos raivosos para o pé do Monte Negro. - quando a criatura sorriu de maneira assassina, o lobo negro sacudiu a cabeça. - Não, Golem. Eu quero que eles cheguem vivos, e que você os abandone à própria sorte, sem encostar uma garra neles.
Yalan chegou mais perto das grades, e deixou que Golem arrancasse uma delas com as garras. Todos nós saímos em disparada, e eu corri atrás do líder da Clareira Obscura para tentar arrancar um chumaço de pelos de sua enorme cauda. Infelizmente, não o alcancei, e desisti. Ele berrava por socorro, e depois queria chamar a mim e a Iglu de maricas?!
Golem nos empurrou com a cabeça. Eu controlei Atala e Iglu, para que eles não tentassem morder a pantera marrom.
Descemos com cuidado o Monte Negro, e Golem tomou o máximo de cuidado para que não nos feríssemos com nada. Rochas, cascalho e tudo o mais, ele empurrava para o lado, na intenção de evitar que nos machucássemos. Uma hora ou outra, eu via Soet e Pas, seguindo-nos ao longe. Não queriam que, quando chegássemos ao pé da montanha, fossem despachados para a Clareira Obscura de novo.
Latindo, eu vi que Atala começou a se cansar. Ela ofegava, tossia, mas não parava de salivar e tentar se desvencilhar, grunhindo e latindo, de Golem. A pantera quase não sabia o que fazer com a cadela desordeira. Mas ela me olhava com seus olhos espertos, da cor do caramelo, e eu sabia que ela sobreviveria o suficiente para escapar daquele inferno.