-Quem está aí? - indagou uma voz fina, doce e aveludada, porém fraca e desnutrida.
-Eu pergunto a mesma coisa! - disse outra voz, mais amarga e infeliz, porém mais forte do que a primeira.
Uma terceira voz apenas gemeu, resfolegando, com falta de energia e de oxigênio.
-Somos Akra e Iglu - eu disse. Depois de um momento, reconheci a segunda voz: - Pas? É você, filho?!
Depois que meus olhos se acostumaram à falta de luz do local, eu vi meu filho agachado, perto de uma loba pequena, de sua idade, de pelagem cinzenta e grandes e doces olhos verdes como esmeraldas. Ao lado deles, um corpo maior, de pelagem rala e fina e olhos semicerrados. Ofegava e gemia ainda mais alto do que antes, como se quisesse dialogar conosco.
-Pai! - meu filho adotivo choramingou, rastejando até mim. Estava dez quilos mais magro, com as costelas aparentes e os olhos lacrimejantes. - Você... Veio me tirar daqui?
-Claro que vim - aninhei o filhote junto ao meu peito. - Eu não poderia abandoná-lo neste covil de monstros, não é mesmo?
-Obrigado - ele disse, mais aliviado. - Mas não podemos abandonar esses dois aqui, pai. Temos de levá-los para longe daqui, ou serão todos mortos pelos lobos da Clareira Obscura. - caminhando até a lobinha cinzenta, ele disse com a voz rouca: - Esta aqui é Soet, e esta aqui - ele me guiou até o corpo resfolegante, e fez cara de pena. - É Atala.
Eu vi, com desgosto, a coleira de espinhos, feita de couro verde claro, ferindo a garganta da pobre loba. Ou melhor... Cachorra. Eu sabia que, com aquela coleira, não poderia ser um lobo. E principalmente com aquele nome, que nada significava.
-Ela está morrendo, Pas. Não conseguirá fazer o caminho de volta. Vamos deixá-la aqui.
Pas ficou horrorizado. Senti que havia dito algo idiota na frente de meu filho e me calei. Não consegui mais abrir minha boca.
-Arranque esta maldita coleira e ela conseguirá falar alguma coisa, quem sabe até possa se recuperar em pouco tempo - resmungou Soet, atrevida, se aproximando de mim e da pobre criatura quase morta.
Fiz uma bendita força que não sei de onde tirei, mas consegui estourar o fecho sem matar a cadela de pelagem curta. Resfolegando ainda mais, ela recebeu o oxigênio de maneira grata, e abriu a boca para poder aspirar ainda mais.
Passamos mais de uma hora ao redor de Atala. Eu sabia que ela não conseguiria falar nada. Ela me olhava de modo doce, e sorria. Depois de todo este tempo, observei que estava anoitecendo e ofeguei para os outros, que aguardavam de olhos cerrados: - Se ela não falar agora, vamos acabar gastando o dia.
-Eu consigo falar - disse Atala, com voz rouca, ainda sorrindo. Seu sorriso me fez estremecer. - Obrigada por.... Por me curar - ela gemeu alto, e eu quase corri para ajudá-la. Iglu, entretanto, foi mais rápido.
-O que houve, Atala? - indagou ele, de forma doce.
-Dói - ela disse, fechando os olhos. - Dói nas minhas coxas. Enfim, posso me levantar agora. - ela caminhou, mancando, até uma das grades, e encostou sua cabeça num dos buracos dali.
Eu também trotei até ela, e me deitei ao seu lado. Todos os outros foram dormir no mesmo instante, e eu resmunguei por conta da provocação. - Me desculpe por ter sido grosso agora há pouco, Atala.
-Sem problemas.... Qual o seu nome?
-Meu nome é Akra, sou líder da Clareira de Lucem.
-Oh, um líder! - ela disse, alegre. Em seguida, teve um acesso de tosse, inspirou profundamente e disse. - Infelizmente, eu sofro de asma... Não consigo ficar muito tempo conversando.... - mais um acesso de tosse violento, que me obrigou,a unir meu corpo ao dela, na intenção de aquecê-la e fazer com que ficasse melhor.
-Venha, você tem que dormir, Atala. Amanhã encontraremos uma maneira de fugir.
Ela me olhava de maneira triste e desesperada. - Não conseguiremos.
-Por que não?
-Estou aqui há alguns meses... E não consegui fugir.... - mais tosse. Exasperada, ela começou a tentar respirar, sem êxito, até conseguir inalar o oxigênio tão precioso para ela. Deitei, ao seu lado, na rocha negra, e baixei a cabeça com cuidado. Ela ficou olhando para mim por alguns instantes, sorrindo como sempre fazia, até cerrar seus grandes olhos cor de caramelo e dormir profundamente.
Acordei com um ronco absurdamente rouco. Olhei para meu lado. Atala havia rolado em outra direção, e resfolegava baixinho. Mas não roncava. Examinei de cabo a rabo o local aonde estávamos, mas não encontrei o perturbador de meu sono. Erguendo-me, dolorido, caminhei até Pas, que estava embolado ao redor das próprias patas e não fazia som algum. Soet, estirada na pedra escura, os pelos cinzentos banhados pela luz da lua, também não emitia som. O único que restava era o que estava, de fato, roncando muito alto. "Iglu", pensei, sem ficar surpreso.
Fui até Atala de novo, e me deitei ao seu lado. Ela inspirou com dificuldade, mas tornou a se acalmar. Fechei os olhos, mas, graças ao meu filho, não consegui pegar no sono novamente.
Descobri, então, que estava morrendo de medo. Meu coração se consumia loucamente e eu simplesmente pensava que jamais sairíamos daquele lugar. "Tenho de encontrar uma saída antes que eles acordem, pode ser que não voltemos a dormir neste mundo amanhã", pensei desesperado.
Então me ergui, e comecei a apertar os olhos para vasculhar um lugar para sair dali. Sabia que nenhum de nós conseguiria sair pela grade. Caminhei por horas ao lado de cada uma das paredes da caverna diminuta, e não encontrei um buraco sequer. Então olhei para Pas e Soet, um ao lado do outro, dormindo sem fazer barulho. Observei o tamanho de ambos os animaizinhos e sorri. Maquinei a ideia brilhante em minha cabeça. E me surgiu uma luz; vejam só!
Disparei até o corpo de Atala e cutuquei-a com meu
focinho negro, fazendo com que acordasse e olhasse para mim. Até que seus olhos
se ajustassem novamente à escuridão, ela perguntou quem estava ali. Permaneci
calado, até que ela finalmente me viu à sua frente.
-Akra? – ela indagou, confusa e sonolenta. – O que
houve? Por que está me acordando? Já é de manhã? Eu dormi demais? –ela olhou
para fora e suspirou, ao observar que ainda era de noite e a lua cintilava no
céu. – O que foi, Akra...?
-Eu descobri! – sussurrei, querendo gritar. Uivar
para a lua que eu havia descoberto uma maneira de sair dali não era uma má
ideia. Mas eu sabia que podia acordar os guardas ou até mesmo Golem, a
pantera-guarda.
-Como assim? O que você descobriu? – ela tossiu.
-Como sair daqui! Eu achei uma saída!
-Isso é impossível, Akra, você deve estar sonhando
ainda. – ela se virou para o outro lado, mas eu a cutuquei ainda mais e ela
voltou a olhar para mim, incrédula. – Você não pode ter achado nada.
-Eu não achei; eu planejei!
-Não acho que seja uma boa ideia, Akra...
-Confie em mim! – eu disse. E, de fato, eu estava
desesperado para que aprendesse a confiar em mim.
-Está bem, Akra. O que é?
-Podemos soltar Pas e Soet na Clareira Obscura. Pas é um lobo preto como todos esses outros, e Soet é cinzenta, cor que também será aceita. Eles podem se desfarçar de animais locais, e dizer a Yalan que estamos contaminados com alguma doença muito séria... Raiva, por exemplo. E, então, seremos lançados até o pé do Monte das Sombras, e escaparemos!
-E se eles preferirem nos matar?!
-Não vão - eu disse. - Uma doença, conforme as leis da saúde que até esses monstros seguem, deve ser tratada com o exílio dos doentes.
-Mas e os sintomas?
-Basta fingir ter dor, ameaçar abocanhar Yalan, latir agudo, feito um desmiolado, ficar nervoso, arisco, e contrair os músculos das pernas e do rosto, e espumar pela boca. É fácil.
-Pode funcionar....
-Vamos combinar com os outros.
E, assim, nos unimos para escapar daquele inferno de grades e monstros negros.
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